Eternos e sinceros agradecimentos, Cíntia Fank. ♥
27/02/2010
E porque eu agora não consigo dormir, pensando que procurei nas pessoas erradas um meio de mentir pra si mesmo sobre quem querer de verdade.
Eu sei que quando tu pegar essa carta, colada na janela do teu quarto, tu achará estranho. Talvez até irá rir desse idiota. Mas eu não me importo mais.
Sabe, olhar para as estrelas toda noite sem nuvens, ou reparar no formato dos relâmpagos quando chove, procurando um coração, todo dia, todo dia, pensando no teu sorriso, nos teus olhos, no teu cheiro, começou a se tornar mais necessário do que eu podia imaginar. Então, enquanto os fogos explodem no céu lá fora, convidando a chuva à trazer um novo ano, eu sento aqui e escrevo para ti.
Tu foi o vento que atravessou a minha vida e eu não pude defender. Por que, assim como o vento, tu te tornou onipresente, intensa e suave, sem chance de ser parada. Eu sei que um sonho é algo quase como o sol, que espero que surja logo para eu poder te levar essas palavras.
O sonho como o sol queima, machuca quando se chega perto, mas é necessário. Necessário como o vôo de uma mariposa perto da chama. Brilha tanto que atrai. Ás vezes, porém, o sol brilha e você diz bom-dia para ele com um sorriso no rosto, a chama se torna tudo e tu vê mais longe. Sim, tu nunca soube, mas eu acredito que te amo desde a primeira vez que te vi. Ter certeza de amar sem mesmo entender direito, sem tu saber, é quase infantil, eu sei. Mas o que eu posso fazer? Meu coração bate mais forte quando eu tô perto de ti, eu me sinto quase imbecil, mas me sinto bem. E acho que é algo que eu iria querer do meu lado pro resto da minha vida.
Então, eu escrevo pra ti. Eu vou deixar isso na tua porta, com o gosto suave do anonimato, e vou deixar o teu coração te dizer de quem veio essas palavras. Se pensar que é de outra pessoa, eu acho que me sentirei feliz por ela, porque ela terá teu sorriso brilhando todo dia.
E nada no mundo poderia ser mais perfeito do que isso.
Eu só queria te ver todo dia, te ver como o sol, como a lua, como todo o amor no mundo.
Te queria todo dia.
Queria a tua mão na minha.
(nothing left to say)(your pain will go away)
"...neste sábado, foi encontrado o corpo de um morador de rua embaixo do antigo Viaduto Veandercross. Os policiais suspeitam de suicídio. Um corte em forma de asas em seu braço aumentam as suspeitas. Nenhuma testemunha se pronunciou até o momento. Foi encontrado com o corpo, apenas um cigarro."
(broken wing, empty glass, words that scream and bounce right back, she says 'you know, we'd all like to rearrange')
(it's all in the way that we know that we could have it all)(the storm yet to come binds us as one)
E é um fato triste ver fotos de vocês todos e saber que daqui algum tempo eu não vou passar de mais um estranho, de mais uma sombra que já passou. E por mais que eu tente voltar com os velhos risos, as velhas piadas e os velhos sentimentos, nunca mais vai ser a mesma coisa, porque não existe lágrima ou tempo que ignore o fracasso de se ir embora.
Existe uma chance das coisas darem errado, meu amigo. E rápido, rápido, rápido, eu tô perdendo o chão sob os meus pés e entendendo que talvez, quando eu voltar, eu não seja mais bem-vindo. Eu vou ver o sorriso sincero de vocês e vou pensar comigo mesmo
'Por que até um sorriso dói tanto?'
Eu não quero ver, eu não quero saber, eu não quero ter que olhar pra trás. O combinado inicial era tão diferente, mas na amargura invejosa da minha falta de preocupação, no egoísmo fútil da minha cabeça, eu perdi mais do que eu poderia admitir.
Talvez possa soar como bobagem, mas corações são inconstantes e nada é pra sempre. Talvez só pra mim, que vou ter que ir nessa estrada muito tempestuosa sozinho. Sejam fortes, eu digo, sendo que no fundo, o fraco fui eu.
Sinto muito.
Pelas coisas que fiz e não fiz, pelas idéias idiotas e as brincadeiras fora de hora. Por não estar lá quando necessário e por estar lá quando não precisava. Sinto muito se eu não me esforcei o que deveria, não passei de um homem cego procurando uma sombra de dúvida.
Sinto muito, mas obrigado.
Obrigado por me mostrar sorrisos todos os dias, obrigado pela compreensão e pelo ombro. e obrigado por todos os abraços que recebi na hora de ir embora. Obrigado pelo carinho, pela paciência e por todas as coisas que eu não conhecia e agora sei. Obrigado por me deixar colocar meu coração na palma da mão de vocês e jamais ver vocês as fechando.
Sinto muito, e até logo.
A vida segue, e eu certamente também vou.
Nunca vai ser a mesma coisa. Afinal, vocês talvez nem sequer lembrarão meu nome.
Mas eu vou amar vocês do mesmo jeito.(nada vai ser fácil pra você)(não dá tempo de se arrepender)
Thomas Hanauer 10.09.09
"Nós..."
Meus olhos se abriram e a frase de uma única palavra brilhou em vermelho logo abaixo da foto de uma pequena família que me pareceu tão familiar.
Senti como que o vermelho da frase havia se fixado nos meus olhos, tamanho era o ardor neles.
Um relâmpago cortou os céus lá fora, a apoteose da eletricidade, da força elétrica negativa da natureza. Nenhum barulho vinha de dentro de casa além de um leve choro de criança vindo do quarto ao lado.
Meu corpo parecia estranhamente leve, porém exigia concentração para movê-lo, como se fosse uma fia teia de aranha tentando se manter inteira num dia de ventos.
Levantei-me da cama olhando para o retrato. Duas crianças e possivelmente seus pais me sorriram de volta de sua eterna paralisia. Por que me pareciam tão conhecidos? Tão imensamente familiares, ao mesmo tempo que não os reconhecia?
Meu olho arde, minha cabeça dói, meu pulmão chia levemente.
Desviei o olhar com custo e olhei em volta. A janela dava para um pátio verde que se perdia na chuva, crivada de raios. Ao lado da janela havia uma pequena escrivaninha com papéis que eu não conseguia ler. Uma pequena caixa retangular jazia caída entre os papéis. Apesar de não poder ler o nome do remédio, conseguia ver o abismo de cor negra da tarja a cada relâmpago.
Ouvi de novo o choro da criança. Decido ir até a porta e saio num frio corredor.
Olho arde, cabeça dói, pulmão chia levemente.
Caminhei até o fim do corredor e me virei para encarar uma porta com um nome de conseguia apenas ler o começo.
"Mary..."
O resto se perdia em embaralhados riscos.
Um raio iluminou o quarto e eu entrei.
Sentado numa cama simples, envolta em cobertas como se fossem sua defesa, seu esconderijo, havia a pequena garota da foto. Era impossível ver seus olhos. Seu choro baixinho enchia o quarto.
Ela se levantou e seus olhos cruzaram o meu por um segundo.
Ela passou correndo por mim.
Tentei chamá-la pelo seu nome, mas não consegui.
Arde, dói, chia levemente.
Segui a garota de volta até o quarto de onde saí.
A cada passo que dava em direção ao quarto, a tempestade parecia triplicar seu poder. Os raios pareciam atravessar até mesmo as paredes. Cada trovão ecoava no meu peito.
Cheguei até o quarto e encontrei a pequena garota ajoelhada ao lado da cama. Senti algo quente na minha mão e vejo que a pequena Mary está com as mãos cruzadas em cima da maõ de alguém na cama. Um raio ilumina a cama.
Os olhos abertos, inchados e vermelhos. A testa suada e os pulmões tremendo em últimos espamos, em uma tentativa falha.
Num segundo, eu soube. Mary-Jane não tinha nada a ver com isso. O remédio tarja preta que eu havia tirado do armário de remédios do quarto dos meus pais não tinha nada a ver com isso. Os meus motivos também não tinham mais nada a ver com isso.
O grito infito antes da queda se perdeu na minha garganta quando o último raio daquela tempestade, que delimitava os últimos batimentos do meu coração cansado, ecoou no desconhecido mundo dos que já foram.(our precious girl, she can't be gone)(I wash my hands of you)
E eu gosto de escadas que levam ao sotão. Eu gosto barulho da chuva, eu gosto do reflexo da água no fundo do box. Eu gosto de ouvir música alta, eu gosto de me dedicar às coisas que eu gosto. Eu gosto até mesmo da minha depressão noturna semanal. Eu gosto de pensar em corações partidos como pequenas latinhas de ferro enferrujando ao relento, eu gosto da geada pela manhã. Eu gosto de poder conseguir me importar com quem eu amo e desconsiderar quem só me quer mal. Eu gosto de não ser como os outros e gosto de me sentir parecido com algumas pessoas. Eu gosto de usar minhas mãos e minha língua para tudo que me inspira. Eu gosto de ouvir música e descobrir novas realidades. Eu gosto de reflexos do céu nublado em poças de água e eu gosto da leve melancolia que isso proporciona. Eu gosto das estrelas e de pensar no infinito. Eu gosto de ser um mestre em negar, mas melhor em esquecer. Eu gosto de sentir arrepio no frio, eu gosto de sentir borboletas no estômago ao cruzar o olhar com alguém. Eu gosto de sorrisos radiantes e abraços sinceros. Eu gosto das risadas expontâneas nas rodas de amigos. Eu gosto de ler em dias de vento forte, eu gosto do farfalhar das folhas no outono. Eu gosto até de ter caído, para ter aprendido a gostar de levantar. Eu gosto do sol suave da manhã no meu rosto, eu gosto de olho no olho. Eu gosto da palavra propano e da palavra glicerina, eu gosto de ouvir pessoas falando baixinho. Eu gosto de sentir mordidas e arranhões, eu gosto de adrenalina, eu gosto de sentir meu coração batendo mais forte. Eu gosto de ocupar meu tempo, eu gosto do segundo final de consciência antes de mergulhar no sono. Eu gosto de acordar e lembrar os sonhos, eu gosto de pensar. Eu gosto de ser aquilo que eu gosto.Thomas Hanauer .31/08/09
"Quebrando espelhos por aí pra ter alguma certeza, nem que seja a certeza de anos de azar."
she sees a million stars like holes in the sky
all god's tears for her they cry
and I am in her rain
Thomas.