20100309

rascunhos - II

O sol entrou no quarto, seus raios filtrados pela cortina branca. Uma brisa leve se arrastou por baixo da porta, revirando folhas de papel, derrubando canetas e trazendo novo fôlego ao aposento. No canto oposto à pequena porta de entrada, havia uma cama de solteiro e um bidê. Um banheiro, à esquerda.

Fora os papéis espalhados, tudo seguia uma fina ordem. Quadros alinhados nas paredes, enfeitos emparelhados na discreta mesa de centro, cortinas fechadas em igual medida.

Trent estava deitado na cama, com uma folha fina sob o rosto. Um lápis escuro havia escorregado de sua mão até o chão. Mil sóis se refletiam no copo parado à cabeceira da cama.

Ao longe, gritos de crianças, pássaros, carros e todos os sons normais do mundo.

Trent foi puxado de volta ao mundo pelo suave som do despertador em cima da mesinha de centro, ao lado de três livros de capa simples. 'Passado', 'Futuro' e 'Desconhecido' eram as legendas que decifravam cada um. Com um grunido suave, ele se levantou. Não era de seu feitio se demorar, ainda mais depois da insistente e estridente ordem do despertador.

Se espreguiçou brevemente enquanto colocava uma calça e uma camiseta leve. Não fazia calor lá fora, mas também se o abuso de roupas viesse, com certeza isso mudaria ali dentro dele.


thomas.

rascunhos - I

A madrugada se estendia pela cidade.

Cirus caminhava por entre as luzes da cidade apreciando a melancólica boêmia desse fato, a já estuprada idéia de virar a noite nas ruas sujas e movimentas. Seu olhar vago não era atraído por nada em particular, apesar de seus ouvidos captarem todo e qualquer ruído particular naquela cidade, os carros, os gritos, as conversas entrecortadas, a decadência dos fatos.

Quando seus olhos então se deram conta, ele já estava sentado confortavelmente no Late Nite, o velho e companheiro bar, de tantos anos, porres e mágoas. Cirus era um rico homem, influente, bonito, inconsequente, e o Late Nite era tudo o que ele precisava.

Seu celular o olhava de cima de sua mesa, piscando, chamando, clamando sua atenção, mas era sempre seu velho copo de whisky, o mais caro do bar, que acabava ganhando o carinho de sua mão. Sua mesa estava somente acompanhando-o, enquanto o resto do bar continuava sua vida, com muitas pessoas cuidando de seus próprios copos, cigarros e demônios.

Seu olhar vagava pelas luzes azuis suaves, pelos letreiros e rótulos refletindo o neon, atrás do barman. Barman esse que lhe acenou com certa reverência nos olhos. Cirus era rico, muito rico, afinal. Ao aceno de sua cabeça, trouxe mais uma dose a ele.

- Tudo bem com o senhor, Sr. Cirus?

Não que o barman realmente esperasse resposta, ele nunca a ganhava. Virou-se para voltar para o bar para atender um pequeno grupo de garotas.

- Tudo sim, Joe.

Voltou-se espantado para Cirus, perguntando a si mesmo como o grande Skyh Cirus sabia seu nome, até se lembrar de seu crachá por cima da camiseta de linho. Porém, o olhar de Cirus já estava longe, fixo no grupo de garotas.

Cirus atentamente observava um rosto no meio daquela pequena multidão. Ele sempre se sentia assim, um demônio olhando para um anjo. Sorriu de leve ante aquela face inocente.

- Hey, Joe. Última rodada, e por favor, chame aquela garota.

Joe seguiu o olhar de Cirus e localizou a garota. Rapidamente voltou com o drink e uma sorridente moça, dentro de seu vestido negro como ébano e olhos azuis como safiras. Seu cabelo era ouro e trovões.

- Aqui está, Sr. Cirus - disse colocando o copo e puxando uma cadeira para a garota -, com sua licença. - retira-se rápido e aí termina a sua parte naquela noite do Cirus.

"Bom garoto", ele pensa consigo mesmo.

E ela um estonteante sorriso ecomeça a falar. Sobre o mundo, sobre como a vida é, sobre os problemas no caminho. Cirus, como um bom ouvinte, somente a observa por cima da borda do copo.

Ele mal prestava atenção ao que ela falava.

Ele só queria uma coisa.

Uma coisa.



As luzes da cidade brilhavam até se perder no mar. Vinte e um andáres acima da cidade.

Ela está tão perto dele que ele sente que pode mergulhar naqueles olhos azuis. Azuis como o mar.

E é aquele momento, aquela pausa daqueles olhos, a calma antes da tempestade, que ele começa a se sentir um pouco culpado. Cirus não é um homem de culpa.

Logo irá acabar, ele pensa.

- O que você pode me oferecer?

- O que você quer? - ela responde.

- Acho que eu fico com tudo.

Ela tinha muito a dar, ele ficaria com tudo, e a luz da cidade foi testemunha.

Lentamente eles despem suas roupas, e a visão que ele tem quase brilha, brilha tanto quantos seus olhos. Olhos de demônio, ele pensa sorrindo.

Ela também sorri.

E ele quebra aquele sorriso enquanto os joelhos dela tocam o chão.

Cirus sequer se dá ao trabalho de prestar atenção, enquanto seus olhos varrem a escuridão do céu e a luz da cidade. Ele não se importava e sabia disso. Mas a culpa estava longe, a culpa não tem espaço nele, ainda mais enquanto sente aquilo que ele sempre gostou de comparar a uma descarga elétrica em todos os nervos da região que ela agora trabalhava tão intensamente, com uma vontade que não constrastava com seu rosto inocente.


thomas.

20100207

my lonely world of grey

Imagine uma cena comigo, então.

Imagine o maior deserto que você já viu, com direito ao infinito horizonte em todas as direções. Com direito à esterilidade seca, a apoteose mítica de cada grão que cobre a vastidão daquele chão sem deus. Ponto a ponto, quilômetro por quilômetro, você verá, com aquele olho da mente que todos nós temos, tijolos. Tijolos em seu ordenado emaranhado, com seu esqueleto de metal indestrutível, agora ruíndo às ferrugens que estão fadados, não importa o que os mortais humanos digam.

E esses tijolos formarão casas, prédios, fábricas, chaminés, criptas de um mundo que já se foi em meio ao tempo.

É um triste cenário, sim. Mas some a isso tudo um céu cinza. E o cinza se estende em direção a todos os infinitos horizontes que o olho da sua imaginação consegue conceber, e imagino que estejamos perto do infinito realmente.

Estamos vendo então um deserto do que um dia foi uma cidade. E não é um deserto de areia, é um deserto de cinzas.

Tudo é cinza, tudo é lama seca no deserto.

Mas não é vazio esse deserto, não. No canto dos seus olhos, na parte onde você não vê com certeza, mas vê assim mesmo, existe vida. Algumas são como vocês podem conhecer. Ratos, baratas, alguns distantes corvos no céu. São animais da carniça e da desolação, e só eles conseguiram sobreviver àquela mímica de estrelas que varreu todo o planeta.

Há vida no canto do seu olho.

Há mecanização no centro do seu olho.

Quando o mundo seguiu adiante, se perdendo nas cinzas e no calor, se perdendo no infinito dos seus horizontes, a brincadeira de ser deus do ser humano permaneceu. Afinal, era a máquina meia-humana ou o humano meio-máquina?

Robôs se espalhavam pelo cenário. A maioria já estava parada, enferrujando como latas de refrigerante. Enferrujando como o coração dos poucos humanos que sobreviveram.

Mas continue imaginando, agora que você compreende o que nos aguarda.

No fim de todos os horizontes, há luz. Branca, quente. É a luz do sol, nosso eterno pai, lançando suas lágrimas de luz ao povo que esqueceu de si mesmo. E uma réstia, fina como as razões humanas, desce ali, na frente do quadro que você está pintando comigo. E essa luz, pela incrível ironia de todos os deuses do universo, ilumina o topo de uma pequena colina, nua em cinzas.

Você alguma vez já reparou as cores em um mundo cinza? Elas parecem gritar, parecem tentar se expremer todas de uma só vez por entre seus olhos, e seus olhos as recebem, como sedentos achando um oasis. E as cores são os oasis desse deserto cinza.

No seu olho agora existe uma pequena garota. E essa pequena garota, naquele mundo que já morreu, era muito, muito mais do que aqueles animaizinhos no canto do teu olho ou os sensores daquelas máquinas no centro dele queriam imaginar. Na mão dessa garota, uma fina corda sobe aos céus, quase invisível, mas refletindo a luz que desce naquela pequena falha no cinza que cobre todos como a linha de prata que prende um sonho à sua cansada cabeça. Na ponta dessa corda, se estendendo à leve brisa que ninguém vê, mas todos sentem, até mesmo os sensores daquelas pequenas máquinas, está um balão vermelho.

Um vermelho vivo, um vermelho notável. Um oasis desse deserto cinza.

A face dessa menina é negada a nós que pintamos essa imagem. Seus longos cabelos, cinzas naquela luz, encobrem seu rosto, e o balão vermelho acima dela parece sorrir com amargura, num jogo de luzes a muito não visto naquele mundo. Uma imagem única.

Porém, o mais necessário para entender essa imagem, você só percebe agora. Como alguém que acaba de dar seu primeiro suspiro após anos de coma, a realidade aparece, brinca, sai da caixa como um pequeno palhaço com sua enferrujada mola eternamente presa embaixo de si.

Parado em frente à menina do vestido rosa, está um robô.

Sua carne crua e metálica se estende nas formas de um ser humano, dois metros de altura e quase meia tonelada de aço eterno, eterno num mundo de cinzas. O rosto dele, com aqueles elétricos olhos azuis, azuis tão brilhantes como o vermelho do balão, tão frios quanto o outro quente.

E você vê então a parte visual completa desse nosso quadro. Um grande robô, uma pequena criança. O azul dos olhos, o vermelho do balão. O cinza do mundo e o dourado do sol.

Até o infinito.




Mas talvez, naquele futuro, se houvessem ainda pintores ou pessoas que poderiam te mostrar esse quadro, eles talvez lhes contariam ou mostrariam mais do que os olhos podem ver.

Talvez eles te fizessem sentir o ozônio estalando na sua garganta, vinda da eletricidade que emanava dos olhos azuis e frios daquele robô.

Talvez eles te fizessem ver a suavidade de pequenas gotas de óleo descendo pelos cantos danificados dos olhos azuis e frios daquele robô.

Talvez eles até podessem te fazer ler as palavras que gotejavam do robô, eternizando um amor que ele não havia sido programado para sentir. Nem a culpa que agora gritava por entre circuitos e fluídos daquela máquina, que se misturavam ao calor do sangue da menina, que brilhavam fora da vista de quem visse o nosso quadro.

E você perceberia, se ainda fosse humano o suficiente, você entenderia que num mundo cinza, onde as cores eram oasis e ser não precisava necessariamente significar viver, que estamos fadados a morrer por aquilo que não entendemos. Fadados a morrer por aquilo que sentimos. E no fim, nós mentimos. E no fim, nós guardamos tudo para nossas pinturas. No fim, estamos todos mortos.

Estamos todos mortos.



Thomas Hanauer
07/02/2010

20100125

"...alguém pra chamar de meu."

E porque eu agora não consigo dormir, pensando que procurei nas pessoas erradas um meio de mentir pra si mesmo sobre quem querer de verdade.

20091228

Rascunho de aniversário

Todo mundo tem momentos em que a "coisa ta preta", e cada um tem o seu jeito de resolver, ou a maneira de se aliviar.
O que me ajuda são as palavras. E aqui, encontro alguém com uma imensa habilidade com elas.
Se não me resolvem o dia, ao menos me confortam e dão segurança. Seja encontrando as respostas de perguntas jamais solucionadas, testemunhando aquilo que ninguem vê, ou só pra sentir a tua mão na minha, é com as tuas palavras que meu dia melhora.
Sinceros agradecimentos,
Lhama

20091217

o que ninguém vê

Uma fria noite, tão rara em dezembro, e era tudo isso o que ela precisava.

Seus pés descalços percorriam as vazias ruas da cidade, esperando achar algo pra chamar de seu. Alguma casa, alguma paz de espírito.

Seus pés descalços caminhavam sozinhos, e era tudo isso o que ela precisava.

Sua cabeça pendia em direção ao infinito, seus olhos eram opacos, antes vistos de brilho. E ela caminhava. Seus ouvidos estavam fechados para toda a pulsação de vida da cidade, sua boca contraída, sentindo o amargo gosto de vazio. Seu nariz não sentia a fumaça e o fracasso ao redor, sua pele só sentia a si mesmo enquanto ela se abraçava, tentando entender.

Sua cabeça era um turbilhão,e mil estrelas explodiam atrás dos seus olhos. A dor era constante, era um lembrete.

Seus pés a levavam em direção a caminhos que só eles sabiam. Como um pássaro que o vento tira do seu caminho, por motivos sem explicação, ela continua. Seus pés martelam o concreto e seu coração martela seu peito.

Quanta sorte você precisa para as coisas fazerem sentido?

"Não tenha medo", eles lhe disseram. Mas ela sempre achou que era preciso temer muito para aconselhar alguém a não tê-lo.

"Não tenha medo", eles lhe disseram.

E ela escondeu suas feridas fundo, mesmo sabendo que esconder as feridas nunca aliviaria a dor. Esconder as cicatrizes talvez as faça sumir no esquecimento, mas alguns cortes sempre irão sangrar. E quanto mais fundo, mas doeria.

E ela se culpa.

Suas mãos se fecham em seus braços, seu cabelo voa em leque àquela brisa solitária, que assim como ela, caminha pelas ruas vazias, procurando um por quê. Alguma casa, alguma paz de espírito.

De qualquer modo.

Ela chega à praça onde sonhou correr com seus filhos, sentar e vê-los brincando por entre as árvores que ela mesmo havia brincado alguns poucos anos atrás. Um leve sorriso iluminou aquele rosto cansado a pensar na simplicidade que as coisas às vezes podem ter.

Mas como uma vela, aquela luz se apagou, minguando. Seus olhos procuram uma direção, e ela sabe que se olhar muito, ela achará, ela se convencerá que há alguma, e no fim isso machucaria também. Ela fecha seus olhos pra esconder as lágrimas de um mundo que não se importava.

Procurando por si mesmo, por entre a escória e a falsidade urbana daquele lugar. Procurando por si mesmo em suas dores, procurando por si mesma em suas escolhas.

"Você sabe que eu vou estar sempre aqui"
Ela morde seu lábio com força, e uma solitária gota escarlate escorre.

"Você sabe que eu te amo"
Suas unhas agora sujas riscam seus braços.

"Nós estamos juntos, nisso e em tudo"
Sua cabeça levanta e lágrimas se juntam com toda a dor.

Uma claridade espectral e fria vem se levantando do outro lado da cidade. Ela treme, sentindo o calor de todas as toneladas do mundo naquels riscos em seu rosto. Ela jura pra si mesmo, e jura pra essas pedras, flores, dores e escolhas, que essas ruas e essas luzes ainda seriam sua casa. Que seu sorriso ainda seria leve, onde alguém se importasse de verdade. Escolhas sem dor. Um lugar longe de tudo que só a fazia chorar.

E era tudo isso o que ela precisava.

Thomas Hanauer
17/12/09

todas as perguntas que nunca tiveram resposta

A manhã crescia sobre a cidade.

Juntos, então, eles saíram para aquela quer seria a última caminhada.

O vento gelado percorria as ruas vazias. A cidade, antes um grande centro, estava vazia. O vento carregava em seus pés um cheiro acre de rebelião, o cheiro de pneus queimados e sangue há muito seco. O vento carregava roupas, papéis, esperanças. Jornais espalhados pela cidade anunciavam uma guerra que já não fazia mais sentido.

Mas juntos, então, eles caminhavam.

De mãos dadas, almas atadas e corações leves.

- No topo da Drazil? - perguntou Eddie.

Anita assentiu e continuaram seguindo pela avenida vazia.

As fachadas de todas as lojas aparentavam ter sido fechadas às pressas. A maioria delas estava com as vidraças quebradas e seu conteúdo esvaziado em segundos por aquela raça que só sabia brincar de esconde-esconde com o próprio fim.

Mas ora ou outra, a vida é quem batia o caixão.

A guerra que os jornais anunciavam pouco importava para os dois. Coisas mundanas desse tipo não adiantavam muito contra uma decisão tomada. Fugir, para eles, não seria uma escolha. Eles não abandonariam o lugar onde haviam crescido, se conhecido e passado a entender aquilo que muitos brincam. Juntos, eles haviam entendido mais da vida do que todos que haviam fugido da cidade.

Aquela sempre havia sido uma cidade conturbada num mundo não muito diferente. Roubos, mortes, estupros, bêbados, prostitutas, mendigos. Decadência. No futuro, essa época seria conhecida como o Prelúdio da Apoteose, e os que fugiram e conseguiram sobreviver à humana brincadeira de ser deus, comentariam que fora uma época boa.

Eddie e Anita eram tudo, eram uma rosa que floresceu no concreto sujo de fuligem e sangue daquela cidade, naquele mundo há muito abandonado pelo seu criador.

Os passos dos dois ecoavam nos prédios vazios. Janelas quebradas e esporadicamente alguma mancha vermelha no chão. Muitas pessoas haviam abraçado o vento por uma única vez desde que a rebelião se instalou na cidade. Cicatrizes de guerra, diziam os governos. Mas cicatrizes não eram feridas que já sangraram? Aquela ainda derramava muito sangue ao tempo de ser chamada cicatriz.

A ponte Drazil se estendia por sobre o rio Anders, cujas águas brilhavam azuis em tempos melhores. A madeira estava em ruínas. Estendia-se para o céu cinza como os espinhos de um cacto. Carros e mais carros jaziam como lápides de pessoas que não conseguiam atravessá-la por causa do intenso trânsito, abandonados para enferrujar. Os epitáfios eram marcas de carro e embalagens de comida deixados para trás. Epitáfios de um mundo onde o dinheiro era mais essencial que seguir em frente.

Drazil ficava em cima de dois morrotes, se estendendo por um vale que era cortado pelo Anders. A altura dava uma visão total da cidade e foi para lá que eles subiram.

De mãos dadas, almas atadas e corações leves.

Uma discreta e ornamentada escada de madeira nobre circundava o primeiro pilar da Drazil, e ia até o pequeno platô no topo. Cada centimetro da escada servia de eterna recordação de nomes de gerações de corações que bateram juntos naqueles degraus. Do local onde estavam, ela parecia toda feita de ébano, escura e indestrutível. Os dedos das mãos opostas dos dois tocou os degraus e eles subiram.

Foram juntos andando até os céus, conquistando o mundo embaixo dos seus pés.

Palavras se tornam desnecessárias quando algo muito importante vem a tona. Palavras machucam, mãos dadas curam. Pensar na irrelevância de todo o resto, pensar no sorriso de entregar o mundo pelo brilho de um olhar foi como o combustível de Eddie e Anita. Eles sabiam do que iria acontecer, mas estando os dois juntos, eram mais fortes e corajosos do que todos. E era nisso que eles acreditavam.

Era nisso que eles entendiam, e diziam com seus sorrisos ao sentarem no topo da ponte mais velha da cidade.

E aquela foi a magia que eles entenderam, o contraste de algo que marcou um começo, para eles, para algo que marcaria o fim, para tudo ali ao redor, tudo que para eles parecia tão explicável.

Eles juntos tinham uma visão de talvez 20 ou mais quilômetros da cidade, e o rio se fundia com o céu cinza ao longe. As fachadas eram todas cinzas, quase completas, sem o terror do que havia acontecido ali. O centro era um amontoado de torres, e ao redor daqueles dois corações, lascas e troncos de madeira se estendiam ao céu.

Ali, juntos, eles entenderam.

Estavam abraçados, o braço de Eddie por cima dos ombros de Anita. As mãos dadas, e eles realmente acreditavam no poder disso.

Eles se encaram no infinito dos olhos.

- E nós estamos aqui, Anita. E eu vejo além dos teus olhos.

Ela levanta mais o rosto e o contempla.

- Acho que a gente entendeu antes que todos que sempre houve uma razão, que nós nunca fomos feitos pra fircamos sozinhos. - ele diz, e sorri.

Ela sorri de volta.

No outro oposto da cidade, o segundo sol brilha, uma nuvem se levanta e todos no mundo concordam que a força da menor das coisas existentes seria um ótimo fim pro maior conflito que eles mesmo já trouxeram a si mesmos. O calor atômico, entretando, jamais se equipararia ao calor do que eles sentiram naquele momento.

Ela abre a boca pela última vez.

- Isso parece que dura pra sempre. É como se eles estivessem abrindo os céus, chovendo algo a mais do que sempre choveu. Nunca termina, isso parece que dura pra sempre. É como ficar na fração de segundo de um acidente de carro. E Eddie... O tempo parece estar diminuíndo.

O brilho já ilumina o dia cinza, transformando-o em uma montanha de luz.

Ele a beija.

- Eu acho que eu só quero contar para ti, que a razão de eu não estar com medo, enquanto o nosso mundo se apaga, é tu. E enquanto os paraísos caem, não parece importar, porque a gente vai continuar junto se nós formos algo, afinal.


De mãos dadas, de almas atadas e corações leves. Como todas as perguntas que nunca tiveram resposta, isso parece que dura pra sempre.



Thomas Hanauer. 17/12/09

20091119

A Tua Mão na Minha

baseado em "Your Hand In Mine" e "Yasmin, The Light", por Explosions In The Sky.

Após 2 dias intermináveis de chuva, ele teve a chance de dar bom-dia ao sol.

A coragem, pensou ele enquanto colocava suas roupas, é uma pequena oportunista. Ela pode aparecer como um leão de madrugada, quando a hora é nenhuma, instigando-o a fazer a mais loucas loucuras, sussurando no seu ouvido que as consequências não haveriam de existir. Porém, quando a luz entra pela janela, ela já se escondeu em algum lugar não de todo encoberto, mas encoberto o suficiente pra deixar a razão tomar conta.

Bill chegou até o portão e parou pra olhar a rua. As árvores estavam lá, o sol lançava seus raios e só alguns fugiam do abraço das folhas e chegavam ao chão. Algumas poças de água brincavam de ar e refletiam arco-íris nas crianças que brincavam na calçada. Parou por um segundo e encheu os pulmões, tentando se lembrar exatamente porque estava ali.

A carta.

Uma carta pra ela. E, bem, é claro que ela havia sido escrita com a luz alaranjada da luminária da mesa do quarto de Bill. Quando a hora era nenhuma e a coragem era um leão. Uma carta pra desabafar e abrir aquele grande músculo que parecia bater mais forte quando la passava pela cabeça dele.

Ah, velho leão que rugiu por mil noites, ache-me outra vez.

Ele começou a andar e pensar que talvez não fosse a hora certa, mas que escolha ele tinha? Era um jogo de risco ir para a casa dela numa manhã de sábado, depois de dois dias chuvosos. Era um jogo de risco caminhar e ver as pessoas sorrirem, ver casais aproveitando aquela manhã agradável ao pé da praça que ele passava. Era um jogo de risco colocar o coração perto da mão dela. Um risco de ter de vê-la só em seus sonhos, mesmo que esses sonhos fossem os mais lindos, onde ele perceberia que confiava no que ele sentia mesmo de olhos fechados.

Descia por uma rua movimentada do centro, perto do antigo viaduto. Via lojas com vitrines refletindo aquele sol, a serenidade de dois idosos sentados à porta do CoffeHouse, uma agradável cafeteria que existia desde os tempos de seu pai.

Atravessou a rua, e seus pensamentos pareciam foguetes, indo parar perto da lua ou das estrelas, que lhe lembravam tanto os olhos dela. O verão se aproximava e com ele o sorriso dela. O medo formigava no seu estômago e seu peito parecia maior, inchado, pulsando tão forte que abafava suas orelhas.

Ele passou perto do parque, e viu duas crianças sentadas perto da fonte, onde peixes de mil cores nadavam num turbilhão, com o sol brincando nas suas escamas prateadas.

Ele sorriu.

Ele sorriu e se espantou com a sinceridade que sentia consigo mesmo. E naquele momento ele soube que não existia o errado nessas questões. O destino que tomasse suas rédeas, mas que agora ele iria fazer o que sentia que era o certo, o que suas pernas, sua mente e seu coração estavam lhe mandando.

Com esse pensamento, ele começou a atravessar a rua.

Fechou os olhos por um segundo. A imagem dela brilhou.

Yasmin.

Apertou forte com a mão a carta escrita. Sorriu. O sol brilhou por entre suas pálpebras fechadas.

Um estouro sôou por ali, vidro quebrado se espalhou pelo chão com aquele som de milhares lágrimas de luz mergulhando no cinza. Ele se perguntou, vagamente, se teria sido algo grave e se preocupou de verdade com o fato de alguém poder ter se machucado. Seus olhos continuam fechados e ele continuou a andar.

Ele tentou continuar a andar.

Ele abriu seus olhos.

Por um confuso momento, ele se perguntou porque o chão a sua frente se estendia azul. Porque suas pernas não se moviam. E porque havia um gosto no fundo da sua garganta, meio doce à princípio, mas depois lembrando uma barra de ferro posta na boca.

A realidade de que seu caminho fora interrompido por uma tonelada de aço o irritava. Manchando a manhã azul de vermelho, ele ficava se perguntando irritado se havia ficado muito bagunçado por ser atropelado, e se ela iria se importar com um pouco de sangue na carta que ele havia escrito para ela.

Envolto nesses pensamentos, ouvindo o grito das pessoas que passavam e segurando firme a confissão que mais havia lhe dado prazer em escrever, ele fechou os olhos pela primeira vez.



Bill deu entrada no hospital da cidade às 11:21 da manhã do dia dois de janeiro.
A vida das pessoas ainda continuava exaltada como as explosões no céu da noite do final de ano. Apesar da chuva, as pessoas comemoraram. Yasmin também comemorou a vinda do ano novo, com a serenidade e inocência que sempre passeava em seus lábios.
A virada foi mágica para muitas pessoas, com os fogos e comemorações brilhando na chuva que se estendia pelo céu de dezembro, recebendo janeiro e os sorrisos de uma nova chance.



Bill continuou de olhos fechados por 17 dias. Não houve mais chuva.

O pequeno incidente com o carro havia lhe custado uma fratura no fêmur direito, um pulmão quase perfurado por uma costela que resolveu atravessar o caminho errado, 8 pontos correndo em diagonal pelas costas, pequenos cortes causados pelo vidro espalhado pelo chão. Uma grave fratura craniana.

Não houve consenso entre os médicos de como Bill havia sobrevivido à hemorragia que se espalhou por dentro dele por causa daquele pequeno pedaço de osso que desviou do lugar que deveria ficar pra sempre.

Seu rosto, no quarto 621 do hospital principal da cidade, estava pálido. Havia o medo dos médicos e familiares de que Bill talvez não superasse o trauma e continuasse em coma por muito tempo. O corpo não reagia a estimulos externos. A única parte do corpo de Bill que parecia a âncora que o segurava a vida era a mão direita, firmemente fechada em volta de um pedaço manchado de papel.

No décimo oitavo dia, alguns colegas de Bill vieram visitá-lo.

Bill soube. Bill ouviu. Bill sentiu.

Bill sentiu-se grato por eles estarem ali. Eram somente três, mas ele nunca pediu mais que isso. Até mesmo ali, deitado com o mundo apagado como uma vela pra seu corpo, ele soube que eles estavam ali como sabe que os dias serão melhores no futuro.

Juntos, eles eram invencíveis, e Bill soube.

Uma explosão de cores correu por seus olhos quando ele os abriu pela primeira vez. Não se sentiu triste por tê-los aberto somente para ver as costas dos três saíndo pela porta. Se sentiu grato. E além de tudo, ele sabia que aquilo ali não haveria jeito, eles sempre estariam com ele. Mesmo que os anos viessem e eles se separassem, o que seria natural, ele saberia que ao fechar os olhos e lembrar do passado, seria eles que mais brilhariam, brilhariam com a força da explosão das cores que agora lhe ocorriam.



Vigésimo primeiro dia.

Yasmin entrou no quarto de Bill e sentiu o peito apertar, mesmo sem vê-la. Yasmin havia vindo ali porque muitas pessoas comentaram sobre o acidente de Bill perto da casa dela, e algo no fundo de seu peito disse que era a coisa certa vir ali.

Bill sentiu que a escuridão que encobria seu mundo via uma luz brilhando, crescendo rapidamente e ele soube que era a coisa certa.

Yasmin se aproximou de leve da cama de Bill, vendo aquele garoto deitado ali e se perguntando que milagre estaria fazendo isso à alguém. O corpo que parecia estranhamente vazio quando ela chegou à porta ia aos poucos dando leves sinais de mudança. O rosto, antes pálido, ia ganhando um pouco de cor. Os músculos antes imóveis pareciam estar se retesando. O peito subia e descia mais rapidamente. A mão direita, que estava deitada, fechada, em cima do linho branco, de repente se abriu.

O mundo pareceu parar no instante daquela respiração.

Ela viu, no papel manchado de sangue, o seu nome escrito.

Pensou em correr, fugir, virar as costas e esquecer. Ela sabia que logo iria esquecer, mas não quis. Com a mão levemente trêmula, pegou o papel. Era um jogo arriscado, afinal.

A letra, caprichada, se estendia por mais ou menos a folha inteira. Ela viu como sendo datada do primeiro dia daquele ano.

À medida que ia lendo, o sangue seco dele se misturava as gotas salgadas que caíam dos olhos dela. Dois líquidos tão mágicos que são difíceis de compreender.

Ela largou a carta, que foi suavemente pousar no lençól, e pegou a mão dele.

Duas lágrimas solitárias escorreram dos olhos de Bill, que agora encaravam os dela.




~#~


Yasmin,

Eu sei que quando tu pegar essa carta, colada na janela do teu quarto, tu achará estranho. Talvez até irá rir desse idiota. Mas eu não me importo mais.
Sabe, olhar para as estrelas toda noite sem nuvens, ou reparar no formato dos relâmpagos quando chove, procurando um coração, todo dia, todo dia, pensando no teu sorriso, nos teus olhos, no teu cheiro, começou a se tornar mais necessário do que eu podia imaginar. Então, enquanto os fogos explodem no céu lá fora, convidando a chuva à trazer um novo ano, eu sento aqui e escrevo para ti.
Tu foi o vento que atravessou a minha vida e eu não pude defender. Por que, assim como o vento, tu te tornou onipresente, intensa e suave, sem chance de ser parada. Eu sei que um sonho é algo quase como o sol, que espero que surja logo para eu poder te levar essas palavras.
O sonho como o sol queima, machuca quando se chega perto, mas é necessário. Necessário como o vôo de uma mariposa perto da chama. Brilha tanto que atrai. Ás vezes, porém, o sol brilha e você diz bom-dia para ele com um sorriso no rosto, a chama se torna tudo e tu vê mais longe. Sim, tu nunca soube, mas eu acredito que te amo desde a primeira vez que te vi. Ter certeza de amar sem mesmo entender direito, sem tu saber, é quase infantil, eu sei. Mas o que eu posso fazer? Meu coração bate mais forte quando eu tô perto de ti, eu me sinto quase imbecil, mas me sinto bem. E acho que é algo que eu iria querer do meu lado pro resto da minha vida.
Então, eu escrevo pra ti. Eu vou deixar isso na tua porta, com o gosto suave do anonimato, e vou deixar o teu coração te dizer de quem veio essas palavras. Se pensar que é de outra pessoa, eu acho que me sentirei feliz por ela, porque ela terá teu sorriso brilhando todo dia.
E nada no mundo poderia ser mais perfeito do que isso.
Eu só queria te ver todo dia, te ver como o sol, como a lua, como todo o amor no mundo.
Te queria todo dia.
Queria a tua mão na minha.




Thomas Hanauer
01/11/09


20091015

àqueles que caíram

A chuva tamborilou ao meu redor e no meu rosto.

Imagino que eu esteja aqui há alguns segundos, mas parecem milênios. Trovões explodem dentro da minha cabeça, um gosto de ferro se mistura com um mais amargo, no fundo da minha garganta: sangue, dor. Decadência, fracasso.

O céu se estende cinza, chovendo suas lágrimas frias em cima de mim, em cima de toda essa rua, com seus carros cuspindo sua fumaça como meus pulmões agora cospem seu sangue.

O que me trouxe até aqui? Não parece importar, agora que meu corpo veste esse chão com minha carne e sangue, e a dor gritando amortecida por entre as migalhas dos meus ossos e dos meus sonhos.

Acho que continuar de olhos abertos depois de abraçar os céus é quase a ironia perfeita de algum deus sem nome.

Hora de se preocupar com as conseqüências, afinal.

O relógio trincado no meu pulso clica seus segundos. Um, dois.

A verdade de que não há mais jeito não assusta tanto quando eu pensei que assustaria, aqui no final de tudo. Meus olhos se enchem com os vidros do grande prédio à minha frente, meu sangue refletindo uma rosa naquele chão cinza e tão completo.

Irônico.

A chuva ajuda aquela rosa a florescer no desolado e estéril intrincado cinza da rua. Riscos quentes cortam o sangue das minhas faces, vindos dos meus olhos vazios.

Se eu fechar esses olhos agora, a dor irá embora?


(nothing left to say)

(your pain will go away)

Thomas, 15/10/09

20090917

O Copo, o Cigarro e o Anjo

John havia perdido a conta de quantos carros já haviam passado abaixo de seus pés. Outros tempos, outras horas e o tempo corre como deve ser.

O viaduto da rua Veandercross se estendia como um monumento de tempos melhores para a cidade, que agora se tornara uma grande metrópole, enegrecida pela fumaça e pelas falsas esperanças. Os carros passavam como raios de luz, sem se importar com o corpo oscilante há 15 metros do chão. E o corpo também não se importa com as luzes. Não mais.

John havia chegado ali por volta das 18h21 daquela noite de sexta. Sentou-se na beirada e deixou estar. O tráfico por cima do viaduto houvera há muito sido proibido. O tempo e o descaso humano com pretensos à eternidade havia destruído aquele gigante.

Seu olhar se perdia em meio as luzes da cidade, desejando que aquela luz tivesse brilhado em igual intensidade na sua vida. As horas se arrastavam e ele via a cidade pulsando ao seu redor como um velho coração morimbundo. Pessoas se locomoviam como formigas sem rainha, tontas, ao relento, esperando que algo as abatesse, as queimassem vivas, como o sol amplificado pela lupa de uma criança. Ele via muitas coisas da altura privilegiada que tinha, ali, no meio da avenida principal de uma cidade fadada ao pó, fora do círculo das luzes dos postes. Via um grupo de pessoas num bar, via carros passando apaticamente, via uma garota sendo estuprada num beco, com seus gritos abafados pelo ronco do trem que passava ao longe. Via mendigos embaixo do viaduto, encolhidos perto das pilastras cobertas de cartazes com promessas melhores. Via pessoas nas janelas, vivendo suas vidas, tentando sobreviver nesse circo de loucos que chamamos de vida urbana.

John pára e pensa no grande vazio que se esconde na sua mão, bem fundo. Houve um tempo onde ele pensava na grandeza da existência, onde acreditava que Deus era bondoso e onipresente, fiel à vida de seus filhos como um cão de guarda. Houve um tempo, porém, que ele percebeu a ironia de se existir. Uma vida, que representava tanto aos olhos incautos, poderia ser tirada tão facilmente quanto o vento levanta folhas secas no outono. Um simples pensamento, uma simples palavra, uma simples vontade, e os filhos daquele pai tão ausente morriam. Deus só existia para quem não vivia no inferno que ele chamou de Terra.

Sentado ali, na apoteose existencial, ele fecha seus olhos. No momento em que fecha os olhos, houve um leve farfalhar ao seu lado direito e pensa que talvez os abutres já estejam se reunindo pra saborear o banquete que cairá dos céus e seguir o ciclo natural das coisas.

- Aceita um cigarro, John?

John continua de olhos fechados, tentando compreender que sua mente cansada lhe pregou uma pequena peça, que talvez o seu subconsciente esteja tentando criar um meio de convenser-lhe a se afastar e voltar à decadência que era a sua vida. Abriu os olhos e olhou para a voz.

A voz grave, porém delicada, passou a ter uma forma. Um rosto comprido, cansado. Bela, à sua exótica forma. Os olhos, que assustavam pela aparência cansada, eram de um cinza metálico, escuro, que contrastava muito bem com o cinza esfumaceado da pele. Os cabelos, brancos, desciam desgrenhados até o chão do viaduto. As pernas, passadas por cima do párapeito, eram longas e magras. Seus pés se escondiam em um calçado de seda cinza, que parecia poeira. O corpo magro, de braços finos, esteva vestido numa túnica da mesma cor dos sapatos, com a mesma aparência etérea. Porém, o que mais assustou John, mais até do que o cigarro acesso na boca fina e do cigarro estendido para ele, foram as costas daquela voz. Longas sombras do que um dia poderiam ter sido asas, estendiam-se um metro acima da cabeça da criatura, para cair novamente, encostando no cabelo atirado no chão. Aos olhos de John, pareciam velhos garda-chuvas gigantes sem os arames pra firmar.

- Não? - A criatura lhe olhou fundo nos olhos. John não suportou o cansaço naqueles olhos e desviou para o cigarro. Ele era negro como as unhas da criatura ali sentada.

- O quê... O que é você? - Sua respiração se tornou pesada, seu coração disparou.

Um silêncio profundo caiu entre os dois. O cigarro continuava estendido para John, e a criatura maneou a cabeça para olhar John diretamente nos olhos mais uma vez.

- Eu sou o seu anjo, John. Me chame de Herald. E o seu cigarro te espera.

- Não é muito irônico o meu anjo estar me oferencendo um cigarro? Eu digo, cigarro mata.

Um riso permeou os lábios de Herald.

- Não era para isso que você estava aqui, desde o começo? Só estou tentando lhe mostrar coisas simples. Entenda esse cigarro como um zero, e o fume pela esquerda.

Diante dessa afirmativa tão simples, porém real, John pegou o cigarro de Herald. Os olhos dele, daquele metal cansado, se abaixaram pra cidade enquanto John colocava o cigarro na boca. A ponta do cigarro brilhou na escuridão de seu rosto assim que ele o colocou na boca.

- O fogo é por conta da casa. - Uma risada irônica veio de Herald.

John tragou o cigarro profundamente, sentindo a fumaça abrir caminho por seus pulmões, os dilatando, os relaxando, os destruíndo. Não era aquela a forma de mutilação mais sincera que existia? Bilhões de pessoas fumavam cigarro, milhares só para relaxar os pensamentos cansados de suas mentes mais cansadas ainda. John por um momento se deixou levar pela misteriosa fumaça de seu cigarro naquela noite nublada, mas sem vento. Quente e seca, como deviam ser as noites. Vendo aquela fumaça, novamente o pensamento de infinito atravessou a mente de John como uma lâmina quente, produzindo pontadas de aço no seu estômago.

- Bem, John, eu devo citar que tu é o espinho mais afiado da minha coroa.

Os olhos de John se abrem lentamente e o cigarro vai parar em sua mão esquerda. Ele contempla a cidade correndo lá embaixo, decadente como um poço abandonado. Os pés balançam e os cabelos sujos se espalham pelos ombros.

-Por quê? Porque até aqui eu tenho que parar pra pensar em tudo?

Herald pende o corpo em direção à rua que corre abaixo de eles. Na sua mão direta, um copo de cristal quebrado numa borda, formando um W irregular. O cigarro na boca do anjo brilhou por um momento enquanto ele tomava fôlego e o recolheu com um movimento da mão direita.

- Por que tu é humano, John. Tu é humano e fugir disso é tão impossível quanto entender o tamanho do nosso universo. Tu é fadado aos pensamentos mais fracassados e inconstantes da criação, é fadado a perder todos os jogos e ter de sorrir no final. Ser humano é ter de pensar, tu não vê? E vocês pensam demais, demais. - Uma tragada e um pequeno pedaço do céu se abriu logo adiante, revelando pequenas estrelas na noite sem lua. - Vocês pensam demais sobre tudo, vocês se culpam, se martirizam. Acham que estão no centro do universo e que tudo acontece com vocês. É triste, John, mas vocês não são perfeitos.

John olhou para Herald e então percebeu que o cansaço dele era compreensível. No primeiro momento, John não havia reparado nas rugas naquele rosto, nem nas cicatrizes que faziam um complicado desenho triangular nos pulsos do anjo. As asas pareciam secas, como cinzas de uma folha de papel. A túnica não brilhava mais, estava suja e rasgada nas pontas. Outra tragada dele, e o cigarro voltou à sua mão esquerda.

- Vê, eu fui mandado aqui para arrumar as coisas para ti, John. Fui mandado para tentar te convencer que há sempre outra esperança. E quer saber? Isso é mentira. Alguns de vocês humanos compreenderam a verdade. Deus é uma mentira. Pelo menos o Deus que vocês teimam em pintar. O velho lá de fora existe, sim. Do lugar que eu vim, eu posso vê-lo todo dia.

- E de onde tu veio, Herald?

Uma tragada da mão direita.

- Eu vim do Depois.

Os olhos de John se encheram de dúvida. Porque essa palavra, essa expressão, usada nesse momento, lhe pareceu tão familiar? Não só familiar, mas certa. Como uma verdade absoluta, como um fato inegável, como o destino que chama por nós toda hora e hora nenhuma. - Por que você veio, então? Se não há como, por que veio?

- Por que tu é uma rima sem esperança no poema da minha existência. E eu acho que essa existência está tendo o seu último grande show, sentado num viaduto desativado, conversando com uma pessoa que deixou te tentar arrumar as coisas faz tempo. E todos nós deveriamos gostar de arrumar as coisas.

- Tu não entende.

- John, eu entendo perfeitamente. Por cada vez que você amaldiçôou seu destino, por cada grito, por cada soco no espelho. Por não acreditar em mim, por ser estúpido, por roubar o que eu poderia sido. John, eu te entendo.

O cigarro na mão de John estava pela metade e sua mão direita estava encrespada em seus cabelos sujos, uma gota de suor caiu de seu nariz até atingir a rua.

- Sabe, John. Nós somos dois lados da mesma moeda, e o engraçado é que essa moeda é comandada pelo seu lado, e você fez o favor de atirá-la num poço, e estamos girando bem depressa em direção ao fundo.

Os olhos de John fitam a garota caída no beco, os mendigos lá embaixo, os carros riscando suas pupílas.

Herald traga seu cigarro e as nuvens já se abriram acima deles, onde milhões de estrelas brilham como furos no céu.

- Eu passei a minha vida toda procurando alguém pra culpar, Herald. Procurando entre as cinzas daquilo que um dia eu fui. E sabe o que eu encontrei? Eu encontrei um anjo, um anjo caído. Um anjo vestido nas cinzas de tudo que eu amei e deixei pra trás, de tudo que me era sagrado e eu deixei cair no caminho até esse viaduto, numa madrugada cuja hora é nenhuma. Eu vejo que no egoísmo da minha espécie, na tentação da saída mais fácil do não acreditar, eu deixei de ver que existem muito mais coisas que olhos cegos pela luz podem ver. Agora aqui, sentado ao teu lado, eu vejo que nas sombras não existem meios de se desejar o melhor.

Herald pega a taça e seu incompleto W e passa levemente na pele do antebraço, até o pulso direito. John sente uma dor quente descer seu braço esquerdo. A mão do cigarro agora pinga sangue na rua 15 metros lá embaixo.

- Tu entende? - Herald suspira com o cigarro preso entre os dentes escuros como suas unhas.

John olha para os céus e relembra sua vida toda num segundo, sua família desestrurada, os amigos que morreram no caminho. Os sonhos, as promessas, os sorriros, as sombras do que não foi.

- Tu veio aqui para arrumar as coisas para mim, para remendar o que eu quebrei. Eu vejo então, que tu veio até mim para que eu lhe curasse, para que eu remendasse as tuas asas e te fizesse voar de novo.

- Com asas quebradas, não adianta tentar voar, pequeno John.

Começa a chover.

Os pingos parecem uma chuva de prata, descendo suavemente ao redor deles. Os cigarros chiam e se apagam.

Uma estrela cadente que não queimou na atmosfera daquele planeta, a luz de um cigarro que se apaga.


Lá está ele, na sua chuva.



"...neste sábado, foi encontrado o corpo de um morador de rua embaixo do antigo Viaduto Veandercross. Os policiais suspeitam de suicídio. Um corte em forma de asas em seu braço aumentam as suspeitas. Nenhuma testemunha se pronunciou até o momento. Foi encontrado com o corpo, apenas um cigarro."

(broken wing, empty glass, words that scream and bounce right back, she says 'you know, we'd all like to rearrange')


(I wish I could fix you and make you how I want you)

(I wish I could heal you and mend where you are broken)




Thomas Hanauer 17.09.09

20090915

juntos nós esperamos a tempestade

O vento daquele final de tarde passou suavemente por entre os jeans dos dois.

O céu que outrora brilhou laranja, agora era da mais pura escuridão. Apenas uma tênue luz atravessava tudo, como se fosse um fantasma de tempos passados. O velho faról, empoleirado naquele grande beiral, erguia-se como um dedo acusador em direção aos céus que piscavam esporadicamente, raios do final.

E os dois estavam ali sentados, lado a lado. Jeans surrados nas pernas, tênis velhos nos pés, sonhos quebrados brilhando nos olhos.

Logo a tempestade vai chegar.

Olhando em direção ao escuro horizonte, que se estendia em direção ao mar. O cheiro de eletricidade carregava o ar, parecendo estalar no céu da boca a cada respiração dos dois. E eles simplesmente esperam.

Algo em algum lugar deu errado. Uma porta não encontrada, uma pedra no lago da vida, um castigo divino, uma chance de começar de novo.

As transmissões dos últimos dias diziam ao mundo que algo nunca visto iria acontecer. Algo havia perturbado o âmago da criação. Tempestades elétricas e magnéticas se estendiam por todo o mundo, nuvens cobriam tudo, escondendo dos pobres filhos da terra o brilho do astro-rei.

Eles não se importavam nada com isso.

Eles estavam ali sentados esperando o mundo acabar, na arrogância de se ter menos de duas décadas de vida. Imagino que isso seja o certo, perdemos todos muito tempo querendo entender a necessidade de ser. Perdemos tempo juntando fracos para comentar a eterna roda do fracasso. A arrogância de não se preocupar acaba, às vezes, sendo a saída certa.

E a tempestade vem chegando.

Ela olha para ele, que continua com os olhos fixos no horizonte.

Mil lâmpadas não derrubariam a escuridão, e o resto das nossas vidas talvez já tenha passado. Aqui a hora é nenhuma.

Muitos que estavam com eles sentados na colina haviam se levantado e corrido. Tentando comprar tempo contra o inevitável. Mas os céus sabem quem caminha, quem foge.

A tempestade aparece no horizonte, implacável, devastadora, completa.

Os dois sentados ali, pés balançando ao vento, digam que vocês nunca irão se importar.

Nós erramos e iremos esperar.

Ela entrelaça os dedos em volta dos dele, que finalmente desvia os olhos da tempestade elétrica pra olhar na tempestade dos olhos dela.

Ele sorri e o cheiro de eletricidade os envolve, os ventos aumentam e não há necessidade de palavras.

Juntos nós esperamos a tempestade.



(it's all in the way that we know that we could have it all)

(the storm yet to come binds us as one)





Thomas Hanauer 15.09.09

20090912

E já que você é a minha estrela..

...seria pedir demais para que você caísse no meu pátio?

(I'm just a notch in your bedpost)

(but you're just a line in a song)

Thomas.

20090910

É natural sentir medo.

E é um fato triste ver fotos de vocês todos e saber que daqui algum tempo eu não vou passar de mais um estranho, de mais uma sombra que já passou. E por mais que eu tente voltar com os velhos risos, as velhas piadas e os velhos sentimentos, nunca mais vai ser a mesma coisa, porque não existe lágrima ou tempo que ignore o fracasso de se ir embora.

Existe uma chance das coisas darem errado, meu amigo. E rápido, rápido, rápido, eu tô perdendo o chão sob os meus pés e entendendo que talvez, quando eu voltar, eu não seja mais bem-vindo. Eu vou ver o sorriso sincero de vocês e vou pensar comigo mesmo

'Por que até um sorriso dói tanto?'

Eu não quero ver, eu não quero saber, eu não quero ter que olhar pra trás. O combinado inicial era tão diferente, mas na amargura invejosa da minha falta de preocupação, no egoísmo fútil da minha cabeça, eu perdi mais do que eu poderia admitir.

Talvez possa soar como bobagem, mas corações são inconstantes e nada é pra sempre. Talvez só pra mim, que vou ter que ir nessa estrada muito tempestuosa sozinho. Sejam fortes, eu digo, sendo que no fundo, o fraco fui eu.

Sinto muito.

Pelas coisas que fiz e não fiz, pelas idéias idiotas e as brincadeiras fora de hora. Por não estar lá quando necessário e por estar lá quando não precisava. Sinto muito se eu não me esforcei o que deveria, não passei de um homem cego procurando uma sombra de dúvida.

Sinto muito, mas obrigado.

Obrigado por me mostrar sorrisos todos os dias, obrigado pela compreensão e pelo ombro. e obrigado por todos os abraços que recebi na hora de ir embora. Obrigado pelo carinho, pela paciência e por todas as coisas que eu não conhecia e agora sei. Obrigado por me deixar colocar meu coração na palma da mão de vocês e jamais ver vocês as fechando.

Sinto muito, e até logo.

A vida segue, e eu certamente também vou.

Nunca vai ser a mesma coisa. Afinal, vocês talvez nem sequer lembrarão meu nome.


Mas eu vou amar vocês do mesmo jeito.


(nada vai ser fácil pra você)
(não dá tempo de se arrepender)



Thomas Hanauer 10.09.09

20090903

o chamado da tempestade.

"Nós..."

Meus olhos se abriram e a frase de uma única palavra brilhou em vermelho logo abaixo da foto de uma pequena família que me pareceu tão familiar.

Senti como que o vermelho da frase havia se fixado nos meus olhos, tamanho era o ardor neles.

Um relâmpago cortou os céus lá fora, a apoteose da eletricidade, da força elétrica negativa da natureza. Nenhum barulho vinha de dentro de casa além de um leve choro de criança vindo do quarto ao lado.

Meu corpo parecia estranhamente leve, porém exigia concentração para movê-lo, como se fosse uma fia teia de aranha tentando se manter inteira num dia de ventos.

Levantei-me da cama olhando para o retrato. Duas crianças e possivelmente seus pais me sorriram de volta de sua eterna paralisia. Por que me pareciam tão conhecidos? Tão imensamente familiares, ao mesmo tempo que não os reconhecia?


Meu olho arde, minha cabeça dói, meu pulmão chia levemente.


Desviei o olhar com custo e olhei em volta. A janela dava para um pátio verde que se perdia na chuva, crivada de raios. Ao lado da janela havia uma pequena escrivaninha com papéis que eu não conseguia ler. Uma pequena caixa retangular jazia caída entre os papéis. Apesar de não poder ler o nome do remédio, conseguia ver o abismo de cor negra da tarja a cada relâmpago.

Ouvi de novo o choro da criança. Decido ir até a porta e saio num frio corredor.


Olho arde, cabeça dói, pulmão chia levemente.


Caminhei até o fim do corredor e me virei para encarar uma porta com um nome de conseguia apenas ler o começo.

"Mary..."

O resto se perdia em embaralhados riscos.

Um raio iluminou o quarto e eu entrei.

Sentado numa cama simples, envolta em cobertas como se fossem sua defesa, seu esconderijo, havia a pequena garota da foto. Era impossível ver seus olhos. Seu choro baixinho enchia o quarto.

Ela se levantou e seus olhos cruzaram o meu por um segundo.

Ela passou correndo por mim.

Tentei chamá-la pelo seu nome, mas não consegui.


Arde, dói, chia levemente.


Segui a garota de volta até o quarto de onde saí.

A cada passo que dava em direção ao quarto, a tempestade parecia triplicar seu poder. Os raios pareciam atravessar até mesmo as paredes. Cada trovão ecoava no meu peito.

Cheguei até o quarto e encontrei a pequena garota ajoelhada ao lado da cama. Senti algo quente na minha mão e vejo que a pequena Mary está com as mãos cruzadas em cima da maõ de alguém na cama. Um raio ilumina a cama.

Os olhos abertos, inchados e vermelhos. A testa suada e os pulmões tremendo em últimos espamos, em uma tentativa falha.

Num segundo, eu soube. Mary-Jane não tinha nada a ver com isso. O remédio tarja preta que eu havia tirado do armário de remédios do quarto dos meus pais não tinha nada a ver com isso. Os meus motivos também não tinham mais nada a ver com isso.

O grito infito antes da queda se perdeu na minha garganta quando o último raio daquela tempestade, que delimitava os últimos batimentos do meu coração cansado, ecoou no desconhecido mundo dos que já foram.



(our precious girl, she can't be gone)
(I wash my hands of you)



Thomas Hanauer. 03.09.09

20090831

não te faz sorrir?

E eu gosto de escadas que levam ao sotão. Eu gosto barulho da chuva, eu gosto do reflexo da água no fundo do box. Eu gosto de ouvir música alta, eu gosto de me dedicar às coisas que eu gosto. Eu gosto até mesmo da minha depressão noturna semanal. Eu gosto de pensar em corações partidos como pequenas latinhas de ferro enferrujando ao relento, eu gosto da geada pela manhã. Eu gosto de poder conseguir me importar com quem eu amo e desconsiderar quem só me quer mal. Eu gosto de não ser como os outros e gosto de me sentir parecido com algumas pessoas. Eu gosto de usar minhas mãos e minha língua para tudo que me inspira. Eu gosto de ouvir música e descobrir novas realidades. Eu gosto de reflexos do céu nublado em poças de água e eu gosto da leve melancolia que isso proporciona. Eu gosto das estrelas e de pensar no infinito. Eu gosto de ser um mestre em negar, mas melhor em esquecer. Eu gosto de sentir arrepio no frio, eu gosto de sentir borboletas no estômago ao cruzar o olhar com alguém. Eu gosto de sorrisos radiantes e abraços sinceros. Eu gosto das risadas expontâneas nas rodas de amigos. Eu gosto de ler em dias de vento forte, eu gosto do farfalhar das folhas no outono. Eu gosto até de ter caído, para ter aprendido a gostar de levantar. Eu gosto do sol suave da manhã no meu rosto, eu gosto de olho no olho. Eu gosto da palavra propano e da palavra glicerina, eu gosto de ouvir pessoas falando baixinho. Eu gosto de sentir mordidas e arranhões, eu gosto de adrenalina, eu gosto de sentir meu coração batendo mais forte. Eu gosto de ocupar meu tempo, eu gosto do segundo final de consciência antes de mergulhar no sono. Eu gosto de acordar e lembrar os sonhos, eu gosto de pensar. Eu gosto de ser aquilo que eu gosto.


Thomas Hanauer .31/08/09

20090830

na incerteza do momento

"Quebrando espelhos por aí pra ter alguma certeza, nem que seja a certeza de anos de azar."






Thomas Hanauer

20090729

melhor do que você pensa

Puta que pariu, eu odeio sonhar.
Eu odeio ter que acordar pela manhã, com aquele gosto amargo na boca de que algo que não deveria ter acontecido, aconteceu. Odeio não lembrar do fato, mas sentir as consequências da verdade.
Eu odeio acordar e ver o vidro da janela. Eu odeio olhar pela janela e ver o mundo lá fora. Odeio ver a chuva caíndo e perceber que nada mudou. Odeio nunca poder ter conseguido arrumar as coisas. Diabo, eu odeio tanto ter um passado lá.
Eu odeio ficar olhando o horizonte enquanto falam comigo. Odeio ter que lembrar. Odeio ver as gotas da chuva caíndo no párabrisa e pensar que cada gota pode ser uma história que não foi.
Eu odeio ter que esquecer. Odeio esquecer e ser trazido pra realidade de um modo nojento. Odeio ligar meu celular e ele pirar, recebendo uma mensagem de seis de junho que eu não precisava ver. Odeio ter que lembrar e odeio ter que esquecer.
Eu odeio ter tentado. Odeio tudo que me lembra de ti. Odeio saber que amei algo que sinto nojo agora. Odeio a tua imaturidade, odeio o jeito que tu sorri, odeio o jeito que sei como tu é.
Porra, eu odeio demais.




_
e, diabo, o dono desse blog aprendeu a enchergar as coisas de um modo bem mais simples. Aprendi que é bom se dedicar a algo que tu acha que é de verdade.
Consequências? eu me preocupo com elas depois.




she sees a million stars like holes in the sky
all god's tears for her they cry
and I am in her rain

20090627

memories to swallow all this tears.

Entende, por fim, que algumas coisas jamais mudam.
Entende que a mentira dita com um sorriso funcionam melhor do que a verdade.
Entende que as pessoas são zeros e uns, e que os uns só aceitam os zeros se for à esquerda, o que não faz a menor diferença.
Entende que fatos são fatos só quando a situação condiz e o resultado beneficia.
Entende que sorrir é uma das melhores defesas de pessoas tristes.
Entende que fugir jamais resolveu alguma coisa, uma fraca saída, mas não resolução.
Entende que algumas pessoas simplesmente não se importam.
Entende que pode sim, não ter jeito.
Entende que pensar em si próprio é um jeito bem fácil de viver sozinho.
Entende que erros são escolhas e escolhas são humanas.
Entende, por fim, que algumas coisas jamais mudam.



Thomas.

20090622

Berlim - 30 de Abril de 1945.


Parado no fundo deste beco, penso que não há mais jeito.

O som dos tiros e bombardeios enfraquecem os meus sentidos. O cheiro amargo da derrota se funde com o ferroso aroma do sangue dos que caíram.

E quantos caíram? Quantos voltarão pra casa? Não sei.

Não sei nem se me importo.

Minhas mãos, antes acostumadas às coisas simples, agora correm por um grande pedaço de fim, com seu metal, munição e gatilho.

Imagino que seja algo em torno de 16 horas da tarde. Meu velho relógio, presente do meu avô, parou às 6 horas e 21 minutos da manhã.

Uma tropa ostentando uma bandeira vermelha passa correndo na frente do beco. Levanto-me e o céu esfumaceado e cinza clama pelo fim.

Aqui, no fundo da minha sanidade, percebo que daria tudo que já tive para que o gatilho tivesse emperrado.

Eram quatro que já foram oito. Todos com alianças douradas nas mãos que seguravam personificações da morte.

O tempo é um pai teimoso e egoísta. Serve aos seus propósitos e jamais pensa nos seus filhos. Houve uma eternidade do momento. O infinito tempo se fez do gatilho até a morte do primeiro soldado.

A cada estalo e brilho, eu desejava tombar, parar com os gritos. descansar no chão enquanto o pobre e amaldiçoado solo da minha pátria bebesse meu sangue, como um último fôlego antes do mergulho.

Mil anos em vinte e um segundos.

Quatro que eram oito ao chão. Eu em pé.

Não era isso no que eu acreditava, afinal? O mais forte reina, triunfa, comanda, sobrevive? No momento que percebo que sou mais um, uma rima sem sentido do forte, eu tremo.

No fim da rua que me encontro, um prédio desaba com um grito de pólvora. Algo no meu peito grita, grita que eu conhecia aquele lugar, meu coração havia sido criado lá.

Havia Havia Havia.

No horizonte, vejo outra bandeira vermelha, maior e imponente, tremulando no ponto mais importante da cidade.

Eu sinceramente achei que ganhariamos.

A pistola com as inicias S.S. me olha com seu fundo túnel agourento enquanto a chuva começa a tamborilar no meu capacete, tirando o sangue seco da velha caveira.

Bem, pelo menos no fundo desse túnel, eu vi uma luz no final.





(sadist of the noblest blood)

(once he was strong, and filled with visions. with life ahead he set his aims. then things went wrong.)



Thomas Hanauer - 22/06/2009.