ser tratado como
um estranho
sendo sugado nessa
falta de
intimidade
ou saber que
quando tudo
cair
vai doer porque
cada hora vazia
é um vazio no
estômago
e essa dor
não é só
minha
20101007
20101004
pôr-do-sol
O som da porta se fechando encheu o quarto. Era um baque seco, como um ponto final. A luz amarela do final do dia brilahva por trás das cortinas opacas, povoando o quarto de contrastes, sombras fundas. A cama, no meio do silêncio, estava desarrumada, todo o caos do universo naquele mar de tecido. na parte final da cama, no meio, o sol refletia em suas costas nuas. Garrafas vazias, bitucas de cigarro, suas roupas. O chão tinha consigo tudo o que poderia ter sido.
Ele estava sentado, sentindo a luz em suas costas, torcendo para que alguma parte dela entrasse no seu peito e preenchesse aquele vazio agoniante. Suas mãos se cruzaram em cima das cobertas que cobriam suas pernas, e ele se espantava ao se dar conta de que estava vivo.
Vivo, sim. Mesmo tendo que vê-la partir em um táxi que ele mesmo pagou, sabendo que ela usou sua escova de dentes enquanto chorava, que tinha que ir, que havia coisas em sua cabeça que naõ são do tipo que iriam passar.
Ele só se deu conta da sua dor ao perceber que até o chão estava menos vazio que ele.
Ele estava sentado, sentindo a luz em suas costas, torcendo para que alguma parte dela entrasse no seu peito e preenchesse aquele vazio agoniante. Suas mãos se cruzaram em cima das cobertas que cobriam suas pernas, e ele se espantava ao se dar conta de que estava vivo.
Vivo, sim. Mesmo tendo que vê-la partir em um táxi que ele mesmo pagou, sabendo que ela usou sua escova de dentes enquanto chorava, que tinha que ir, que havia coisas em sua cabeça que naõ são do tipo que iriam passar.
Ele só se deu conta da sua dor ao perceber que até o chão estava menos vazio que ele.
t., a little time ago
20101003
segundos
Ela enchia o quarto, ela enchia sua cabeça. Mesmo não estando ali, ela era parte dominante, parte definitiva de tudo aquilo. E tudo passava tão rápido, e cabos de aço apertavam seu estômago, o calor fazia seus olhos arder, seu corpo todo tremia. Tinha que ser assim, não tinha? O telefone era só enfeite, o escuro lá fora era só detalhe. Por que tinha que ser assim? Era um universo de planos afundando, se perdendo no tempo. E de quanto tempo ele precisava? De quantas mais dúvidas os segundos iam se encher, contando as horas até o nascer do sol? O alcoól não podia mais ajudar, e os sonhos só traziam mais dor. Dor que enchia o quarto, enchia sua cabeça. Era vazio, mas doía. O tempo é relativo, mas cada segundo era doloroso. Cada segundo que vinha assustava, cada segundo que se passava era uma lembrança tão boa. O segundo de agora, entretando, era agoniante. E as pessoas olhavam, e ele baixava os olhos, procurando os passos que o levariam de volta pra onde ele queria estar. Nenhum corpo encaixaria naquele espaço que agora faltava. Todas as peças caíndo, longe do seu desejo.
"eu só queria dizer que eu sinto muito"
20100929
palavras pra te fazer sorrir
Estava escuro ali. Um crepúsculo enjaulado pelas paredes. A luz que vinha era amarela, de algum lugar na imensidão do teto. Sódio, ele achava. A noite lá fora já brincava há horas. Ele achava que podiam ser onze horas, meia noite, outro mundo. Ele havia perdido a conta com a situação, e não se importava com isso. Ele podia ouvir o mar, os carros passando velozes, cada um carregando suas histórias, seus arranhões. A porta de madeira escura parecia sobrenatural naquela luz suave, um portal pra sonhos maiores na penumbra. O sofá era confortável, e ele via suas mãos nos braços da poltrona. A tela da televisão era um espelho de reflexos, o murmurio do vento passando pelas janelas de vidro e indo se perder por aí o deixavam confortável. O som da água escorrendo, batendo no chão, do chuveiro por trás da porta enchia sua mente. De risos, de abraços. De lembranças, de planos. Era impossível controlar aquele sorriso que se permeava por seus lábios.
Engraçado, aquelas borboletas na barriga. Fazendo cócegas no seu estômago, parecendo esquentar todo o peito. Seus olhos por trás dos óculos esquadrinhavam toda a cena, sedentos por guardar aquelas memórias por muito tempo. Ele podia viver com a idéia de que isso nunca seria pra sempre, mas não poderia se conformar consigo mesmo se não fizesse daquilo algo eterno. Olhou pra fora, deixando seus ouvidos registrarem o som suave do registro da água sendo fechado, e as últimas gotas estalando no chão. De baixo da porta, o cheiro era úmido, doce, suave. Ele sempre amou aquele cheiro, ainda mais agora que ele vinha um pouco diferente, mesclado com o cheiro daquela pele.
O trinco girou, e ele sentiu o ar se deslocando com a porta. Era uma tempestade, uma dança louca no seu estômago.
O vapor de água veio rolando, flutuando no ar. Ele entendeu como a água devia se sentir. Seus pulmões se contrairam, libertando as borboletas. Seu fôlego não via jeito de ficar nos seus pulmões, não com ela ali na frente dele. Sua camiseta cobria a parte de cima do corpo dela, e o resto se resumia a só uma peça. Ela ficou ali parada, a luz brincando de mil tonalidades, mil contrastes nela. Ele parecia conhecer cada curva do corpo dela, e parecia ansiar em conhecê-las de novo. Suas mãos se contrairam de leve por cima da poltrona, e seus olhos brincavam no corpo dela. Começavam dos pés que se apoiavam em pontas e iam subindo pelas coxas. Ah, aquelas coxas eram a apoteose de todo o desejo dele. Firmes, mas suaves. Brancas, lindas. A luz parecia guiar seus olhos, subindo, subindo, parando pra sorrir entre as coxas e o quadril. Os ossos despontavam do quadril, um convite às suas mãos, à sua boca. Não havia como parar os olhos, e eles absorviam cada detalhe, subindo pela barriga, pelo volume dos seios dentro da camiseta. Seu rosto sorria pra ele, por cima daquele pescoço delicado, que ele já sabia onde mordiscar.
Sabe quando tu entende que as coisas podem fazer sentido só vendo um sorriso? Que tu pode esquecer tudo que aconteceu antes, depois, o tempo é nada, por um sorriso? Era assim que ele se sentia.
O sorriso dela só embelezava ainda mais o rosto dela. Era grande, quente. Os lábios dela pareciam convidá-lo a se levantar e tomá-la nos braços, mergulhar neles, beijar, morder, sentir o calor. Os olhos brilhavam na luz amarelada, o cabelo dela caia pelos lados do rosto. Em quantos sonhos, em quantas tardes, ele já havia visto aquele cabelo? Era como ele gostava, e até mesmo quando ele estava enrroscado na sua mão, ele era lindo.
Em suma, enquanto seu fôlego se esvaziava e aqueles segundos pareciam durar uma vida toda, ele a amou. Amou o corpo, a presença, o sorriso. Amou cada centímetro do corpo dela, cada pensamento bom que ela trazia e todos os ruins que ela ofuscava.
Quando viu, estava levantando da poltrona, indo em direção à ela. O mundo lá fora era outra coisa, e as consequências que esperassem do lado de fora. Será que um dia ela saberia quão sortudo ele se sentiu naquele momento? Quão feliz? Ele esperava que sim.
Enquanto os lábios dele encontravam o dela, as mãos iam para a pele e a blusa ia de encontro ao chão, ele pensou que um dia talvez escrevesse sobre aquilo quando tudo aquilo ainda brilhasse em sua imaginação.
feliz aniversário
meu anjo
30092010
20100928
como fogo
O fogo subia, lambendo as paredes sujas, confrontando a garoa fraca que caía na rua. Era o número 621 da rua principal, e agora ele ardia em um inferno rubro. Os céus cinzas, metálicos, derramavam aquela água que mais parecia uma zombaria, por de nada adiantava contra a força das chamas. Toda a parte frontal do prédio estava enegrecido pelas línguas de metros e metros, soltando aquela fumaça espessa que seria vista por quilômetros de distância.
Em cada poça de água da rua, o reflexo do fogo parecia queimar mil outras dimensões, um espelho sem fim daquela loucura.
As pessoas em volta corriam. Algumas paravam e colocam as mãos na cabeça, se perguntando que mente havia iniciado tamanho caos, tamanho poder começando na cabeça diminuta de algum fósforo já há muito queimado. O irônico era que algumas pessoas estavam ali só para apreciar o estrago, se deliciando com os estalos e o rugido do fogo, as lágrimas que escorriam da tinta da parede.
O céu zombeteiro continuava seu rumo, as sirenes já despontavam no limiar da audição, a luz enchendo todos que estava ali perto. O trânsito parado, o ser humano em sua eterna necessidade de ver a desgraça do próximo desacelerando até quase parar para contemplar a destruição.
Aquele fogo selvagem dentro de cada um. E dentro desse fogo, no núcleo daquela reação, juntos na esquina, talvez o estopim humano daquele fogo. Duas pessoas, duas almas, dois corações se contentando com o calor e o infinito, entrelaçados nos braços um do outro. Era selvagem, mas era delicado. Apesar de tudo, eles só estavam aproveitando o fogo como todos ali, e as risadas deles enchiam alguns de terror, outros de contentamento.
E na mente de todos, e na mente de nenhum. Como, afinal, alguém poderia temer algo que brilhava em todas as poças daquela rua?
Em cada poça de água da rua, o reflexo do fogo parecia queimar mil outras dimensões, um espelho sem fim daquela loucura.
As pessoas em volta corriam. Algumas paravam e colocam as mãos na cabeça, se perguntando que mente havia iniciado tamanho caos, tamanho poder começando na cabeça diminuta de algum fósforo já há muito queimado. O irônico era que algumas pessoas estavam ali só para apreciar o estrago, se deliciando com os estalos e o rugido do fogo, as lágrimas que escorriam da tinta da parede.
O céu zombeteiro continuava seu rumo, as sirenes já despontavam no limiar da audição, a luz enchendo todos que estava ali perto. O trânsito parado, o ser humano em sua eterna necessidade de ver a desgraça do próximo desacelerando até quase parar para contemplar a destruição.
Aquele fogo selvagem dentro de cada um. E dentro desse fogo, no núcleo daquela reação, juntos na esquina, talvez o estopim humano daquele fogo. Duas pessoas, duas almas, dois corações se contentando com o calor e o infinito, entrelaçados nos braços um do outro. Era selvagem, mas era delicado. Apesar de tudo, eles só estavam aproveitando o fogo como todos ali, e as risadas deles enchiam alguns de terror, outros de contentamento.
E na mente de todos, e na mente de nenhum. Como, afinal, alguém poderia temer algo que brilhava em todas as poças daquela rua?
t.
20100924
a volta pra casa (pt. I: infinito)
Eu volto, eu sempre volto. Eu volto melhor, mesmo tu não esperando por mim. Tu sabe que é verdade, eu sempre estive aqui pra provar que eu faço essas coisas.
Passava pouco do meio-dia agora. O ar estava abafado, elétrico. Algo sobre alguma tempestade para o final do dia. O sol, entretanto, ainda refletia no capô do carro, lançando raios de luz que refletiam nas lentes dos seus óculos, provocando explosões de luzes dentro do seu cérebro. As janelas iam fechadas, o ar-condicionado funcionava, e no rádio alguma música daqueles tempos tocava. Algo sobre a casa que Jack construiu. O ocupante do carro usava uma camiseta cinza, um jeans azul-escuro, seus tênis apertando suavemente o acelerador. No banco ao lado, algumas cópias de seu mais recente livro, alguns rascunhos apressados. No chão, uma pasta com o símbolo de algum raio esquecido por enquanto. Não havia pressa, havia dúvida. Via poucas pessoas na rua, ainda faltavam dois meses até o pico da temporada. Enquanto descia a colina em direção à cidade, suspirou de leve.
A cidade era uma velha conhecida dele. Dez anos atrás e ela era parada obrigatória, pelo menos uma vez a cada quinzena. Ele conhecia seus caminhos de cor, sabia onde ir, onde levar seus passos. Ele gostava de lá. Era pequeno, pacato, não havia crescido muito nesse tempo. Alguns prédios a mais, restaurantes que mudaram de nome, seus pássaros em todas as ruas. E descendo a colina de acesso, seu carro vinha descendo, absorvendo a luz do sol.
Parou na primeira entrada que achou. Precisava sentir o mar e lembrar de tudo. Fazia tempo, e ainda doía. Parou o carro, pensando que se a achasse, ainda iria apagar o carro na saída e xingar baixinho. Saiu do carro, e o baque do cheiro foi como uma avalanche, como uma onda maior das milhões que quebravam ao alcance dos seus passos. Assim como ele se lembrava, a cidade estava quieta, só o rugido das ondas e o assovio do vento tocando grãos minúsculos de areia contra seu corpo, batendo nos óculos e revolvendo seu cabelo. Sentou-se à beira da areia, em um murinho de cimento. Perdeu o tempo e perdeu o céu. Quando finalmente os anos o deixaram voltar para sua própria órbita, seus braços estavam avermelhados. Nada bom, velho sol. Nada bom.
- Eu nem imaginava que tu iria vir!
- Mas eu disse pra ti que viria, e quando eu falo, eu venho. E vamos lá, coloque um sorriso nesse rosto e me convida pra entrar.
O relógio no pulso já dizia que eram quase quatorze horas e ele decidiu seguir seu caminho. Não havia muito o que fazer por ali. Ele só precisava apaziguar aquilo tudo, enterrar e guardar todos esses momentos que mesmo dez anos depois ainda insistiam em voltar à noite, quando a hora é nenhuma e todos os sonhos do mundo gritam sua coragem.
Virou-se olhando pro céu, vendo nuvens que se formavam perto dos morros, ainda longe do sol. Abriu a porta do carro, escutando o tique-e-taque, e apertou o botão da capota. Ficou ouvindo o zumbido do motor elétrico liberando o teto do carro, retraíndo a capota. O couro claro, cobrindo os dois únicos lugares do carro, pareciam querer fugir e se juntar à areia. Talvez ele quisesse isso também, só se sentar lá e ouvir as ondas até que tu do desabasse como deveria ser.
Entrou no carro, colocou a chave na ignição, engatou a ré e foi saíndo, manobrando, até voltar pra estrada.
Ele estava com medo da tempestade.
- Eu tenho muita sorte mesmo, é só sair da tua casa que começa a chover, hein! Será que alguém vem me buscar?
Entrou na rua principal, sentindo o cheiro do mar, a brisa morna. Ele se lembrava como se tivesse sido ontem, era a quinta depois do mercado. Acelerou um pouco, mas sem passar dos quarenta por hora. Não era um dia de pressa.
Como sempre, como anos atrás, ele só lembrou da seta para virar quando estava em cima da curva, mas a fez mesmo assim. Subiu a pequena rua e seguiu à direita. A cada metro, eram lembranças. O sorriso dela parecia estar no seu ouvido, o calor da respiração dela no ombro dele, cada centímetro de pele colada na dele. Estava perto, cada vez mais perto. Parou em frente aquele lugar que tantas vezes antes havia parado. Não esperava mesmo ver aquela casa, mas sentiu um aperto engraçado na garganta ao notar o prédio que agora estava ali. Apagou o carro e ficou olhando em frente, ao longe. Tamborilava os dedos na direção sem se dar conta que era o ritmo de uma música que ele havia mostrado há muito tempo atrás, antes de sonhar com isso tudo.
Olhou para o relógio, eram quase quinze horas. As nuvens se pronunciavam ainda mais, o tempo ruim.
Ligou o carro, contornou a rua pensando se já era hora de ir embora.
- Quer vir dormir aqui? Eu vou te buscar.
- Eu quero ir, mas.. Mas eu tô com medo.
- Não precisa ter medo, eu vou cuidar de ti.
Parou em algum mercadinho aleatório. Não queria mais pensar muito, o sol nem parecia brilhar mais. Talvez chovesse antes do que ele pensava. Entrou e foi andando pelo mercado, simplesmente perdendo tempo, mais tempo, e ele teria que se contentar com isso. Ela se fora, e com ela muita coisa. Ninguém espera por ninguém e a cada noite é pior. Olhou para o relógio e o tirou. Colocou no bolso e avançou até as prateleiras do fundo, querendo pegar algum chocolate e ir embora, voltar pra qualquer lugar. Ele precisava tirar aquele amargo da garganta. Pegou qualquer um, não fazia diferença. No fim, nada fez muita diferença.
Foi caminhando devagar até o balcão, abençoando a penumbra que havia ali dentro. Todas as embalagens coloridas pareciam opacas, vazias por dentro. Como tudo que ele ainda tinha pra acreditar. Viu seus livros em uma pequena estante. Viu uma garota, só alguns anos mais nova, folheando um deles. Ele já havia visto aquele cabelo e aqueles quadris em algum lugar, não tinha?
- Não consigo extamente me ver como um escritor famoso. Provavelmente eu vou terminar como um escritor falído e alcóolatra.
- Faz o que tu quiser, só não para de escrever!
O relógio machucava a pele dele, devia ter a ver com a temperatura, irritando a pele. Tirou-o do pulso esquerdo e escorregou para dentro do bolso da calça. Em algum lugar, algo sobre estar perdido e ter alguém pra lhe guiar era cantado baixinho. Decidiu que veria como andavam os preços, buscando pelo seu livro preferido, desde sempre. A Tua Mão na Minha. Ele lembrava até hoje de ter começado a escrevê-lo quando ainda estava na faculdade, brincando de explodir coisas com eletricidade, desejando poder parar o tempo naqueles anos tão completos.
Esticou a mão esquerda, que estava sem relógio, revelando uma pequena tatuagem, o encontro de dois círculos. Passou pelo lado da moça que via seus livros também, torcendo pra não ser reconhecido. Havia fãs realmente engraçados, e alguns amedrontadores.
Ele sentiu. Foi quase como uma descarga elétrica, arrepiando até ele. A moça deu um pequeno pulo ao ver seu pulso passando ao seu lado em direção à prateleira. Temendo tê-la assustado, ele já repassava na mente mil desculpas pelo incômodo, quando viu também.
- Eu sempre quis tatuar o símbolo do infinito no pulso, é o meu lado nerd falando mais alto.
- Ah, eu também sempre quis, nem vem!
O pulso dela mostrava o mesmo que o pulso dele. Dois zeros colados, um oito deitado, tanto faz. Era o infinito, o infinito naquele mercadinho escuro no meio de uma praia que há muito ele havia deixado. Seu estômago deu voltas, suas pupilas contraíram rapidamente para irem se dilatando ao extremo, sua pele arrepiou.
Simplesmente não podia ser.
No meio de todas as probabilidades, no meio de infinitas estatisticas e chances e tudo o que ele acreditava. Ela ia se virando, e o tempo pareceu segurar todos os seus cavalos e fazer daquele mais um desses segundos que duram pra sempre e tu acaba lembrando pra sempre em todos os dias que o sono demorar pra vir. O contorno daqueles olhos, tão únicos, que ele havia reparado logo, e o cheiro dela, o cheiro dela o fazia querer perder os sentidos. Eram os mesmos lábios, os mesmos olhos, as mesmas linhas. Era espantoso, e o chocolate e o livro caíam de suas mãos frouxas, e os braços, lado a lado.
Um segundo que durou pra sempre.
- Eu volto pra te buscar.
t.
Passava pouco do meio-dia agora. O ar estava abafado, elétrico. Algo sobre alguma tempestade para o final do dia. O sol, entretanto, ainda refletia no capô do carro, lançando raios de luz que refletiam nas lentes dos seus óculos, provocando explosões de luzes dentro do seu cérebro. As janelas iam fechadas, o ar-condicionado funcionava, e no rádio alguma música daqueles tempos tocava. Algo sobre a casa que Jack construiu. O ocupante do carro usava uma camiseta cinza, um jeans azul-escuro, seus tênis apertando suavemente o acelerador. No banco ao lado, algumas cópias de seu mais recente livro, alguns rascunhos apressados. No chão, uma pasta com o símbolo de algum raio esquecido por enquanto. Não havia pressa, havia dúvida. Via poucas pessoas na rua, ainda faltavam dois meses até o pico da temporada. Enquanto descia a colina em direção à cidade, suspirou de leve.
A cidade era uma velha conhecida dele. Dez anos atrás e ela era parada obrigatória, pelo menos uma vez a cada quinzena. Ele conhecia seus caminhos de cor, sabia onde ir, onde levar seus passos. Ele gostava de lá. Era pequeno, pacato, não havia crescido muito nesse tempo. Alguns prédios a mais, restaurantes que mudaram de nome, seus pássaros em todas as ruas. E descendo a colina de acesso, seu carro vinha descendo, absorvendo a luz do sol.
Parou na primeira entrada que achou. Precisava sentir o mar e lembrar de tudo. Fazia tempo, e ainda doía. Parou o carro, pensando que se a achasse, ainda iria apagar o carro na saída e xingar baixinho. Saiu do carro, e o baque do cheiro foi como uma avalanche, como uma onda maior das milhões que quebravam ao alcance dos seus passos. Assim como ele se lembrava, a cidade estava quieta, só o rugido das ondas e o assovio do vento tocando grãos minúsculos de areia contra seu corpo, batendo nos óculos e revolvendo seu cabelo. Sentou-se à beira da areia, em um murinho de cimento. Perdeu o tempo e perdeu o céu. Quando finalmente os anos o deixaram voltar para sua própria órbita, seus braços estavam avermelhados. Nada bom, velho sol. Nada bom.
- Eu nem imaginava que tu iria vir!
- Mas eu disse pra ti que viria, e quando eu falo, eu venho. E vamos lá, coloque um sorriso nesse rosto e me convida pra entrar.
O relógio no pulso já dizia que eram quase quatorze horas e ele decidiu seguir seu caminho. Não havia muito o que fazer por ali. Ele só precisava apaziguar aquilo tudo, enterrar e guardar todos esses momentos que mesmo dez anos depois ainda insistiam em voltar à noite, quando a hora é nenhuma e todos os sonhos do mundo gritam sua coragem.
Virou-se olhando pro céu, vendo nuvens que se formavam perto dos morros, ainda longe do sol. Abriu a porta do carro, escutando o tique-e-taque, e apertou o botão da capota. Ficou ouvindo o zumbido do motor elétrico liberando o teto do carro, retraíndo a capota. O couro claro, cobrindo os dois únicos lugares do carro, pareciam querer fugir e se juntar à areia. Talvez ele quisesse isso também, só se sentar lá e ouvir as ondas até que tu do desabasse como deveria ser.
Entrou no carro, colocou a chave na ignição, engatou a ré e foi saíndo, manobrando, até voltar pra estrada.
Ele estava com medo da tempestade.
- Eu tenho muita sorte mesmo, é só sair da tua casa que começa a chover, hein! Será que alguém vem me buscar?
Entrou na rua principal, sentindo o cheiro do mar, a brisa morna. Ele se lembrava como se tivesse sido ontem, era a quinta depois do mercado. Acelerou um pouco, mas sem passar dos quarenta por hora. Não era um dia de pressa.
Como sempre, como anos atrás, ele só lembrou da seta para virar quando estava em cima da curva, mas a fez mesmo assim. Subiu a pequena rua e seguiu à direita. A cada metro, eram lembranças. O sorriso dela parecia estar no seu ouvido, o calor da respiração dela no ombro dele, cada centímetro de pele colada na dele. Estava perto, cada vez mais perto. Parou em frente aquele lugar que tantas vezes antes havia parado. Não esperava mesmo ver aquela casa, mas sentiu um aperto engraçado na garganta ao notar o prédio que agora estava ali. Apagou o carro e ficou olhando em frente, ao longe. Tamborilava os dedos na direção sem se dar conta que era o ritmo de uma música que ele havia mostrado há muito tempo atrás, antes de sonhar com isso tudo.
Olhou para o relógio, eram quase quinze horas. As nuvens se pronunciavam ainda mais, o tempo ruim.
Ligou o carro, contornou a rua pensando se já era hora de ir embora.
- Quer vir dormir aqui? Eu vou te buscar.
- Eu quero ir, mas.. Mas eu tô com medo.
- Não precisa ter medo, eu vou cuidar de ti.
Parou em algum mercadinho aleatório. Não queria mais pensar muito, o sol nem parecia brilhar mais. Talvez chovesse antes do que ele pensava. Entrou e foi andando pelo mercado, simplesmente perdendo tempo, mais tempo, e ele teria que se contentar com isso. Ela se fora, e com ela muita coisa. Ninguém espera por ninguém e a cada noite é pior. Olhou para o relógio e o tirou. Colocou no bolso e avançou até as prateleiras do fundo, querendo pegar algum chocolate e ir embora, voltar pra qualquer lugar. Ele precisava tirar aquele amargo da garganta. Pegou qualquer um, não fazia diferença. No fim, nada fez muita diferença.
Foi caminhando devagar até o balcão, abençoando a penumbra que havia ali dentro. Todas as embalagens coloridas pareciam opacas, vazias por dentro. Como tudo que ele ainda tinha pra acreditar. Viu seus livros em uma pequena estante. Viu uma garota, só alguns anos mais nova, folheando um deles. Ele já havia visto aquele cabelo e aqueles quadris em algum lugar, não tinha?
- Não consigo extamente me ver como um escritor famoso. Provavelmente eu vou terminar como um escritor falído e alcóolatra.
- Faz o que tu quiser, só não para de escrever!
O relógio machucava a pele dele, devia ter a ver com a temperatura, irritando a pele. Tirou-o do pulso esquerdo e escorregou para dentro do bolso da calça. Em algum lugar, algo sobre estar perdido e ter alguém pra lhe guiar era cantado baixinho. Decidiu que veria como andavam os preços, buscando pelo seu livro preferido, desde sempre. A Tua Mão na Minha. Ele lembrava até hoje de ter começado a escrevê-lo quando ainda estava na faculdade, brincando de explodir coisas com eletricidade, desejando poder parar o tempo naqueles anos tão completos.
Esticou a mão esquerda, que estava sem relógio, revelando uma pequena tatuagem, o encontro de dois círculos. Passou pelo lado da moça que via seus livros também, torcendo pra não ser reconhecido. Havia fãs realmente engraçados, e alguns amedrontadores.
Ele sentiu. Foi quase como uma descarga elétrica, arrepiando até ele. A moça deu um pequeno pulo ao ver seu pulso passando ao seu lado em direção à prateleira. Temendo tê-la assustado, ele já repassava na mente mil desculpas pelo incômodo, quando viu também.
- Eu sempre quis tatuar o símbolo do infinito no pulso, é o meu lado nerd falando mais alto.
- Ah, eu também sempre quis, nem vem!
O pulso dela mostrava o mesmo que o pulso dele. Dois zeros colados, um oito deitado, tanto faz. Era o infinito, o infinito naquele mercadinho escuro no meio de uma praia que há muito ele havia deixado. Seu estômago deu voltas, suas pupilas contraíram rapidamente para irem se dilatando ao extremo, sua pele arrepiou.
Simplesmente não podia ser.
No meio de todas as probabilidades, no meio de infinitas estatisticas e chances e tudo o que ele acreditava. Ela ia se virando, e o tempo pareceu segurar todos os seus cavalos e fazer daquele mais um desses segundos que duram pra sempre e tu acaba lembrando pra sempre em todos os dias que o sono demorar pra vir. O contorno daqueles olhos, tão únicos, que ele havia reparado logo, e o cheiro dela, o cheiro dela o fazia querer perder os sentidos. Eram os mesmos lábios, os mesmos olhos, as mesmas linhas. Era espantoso, e o chocolate e o livro caíam de suas mãos frouxas, e os braços, lado a lado.
Um segundo que durou pra sempre.
- Eu volto pra te buscar.
t.
Post-Mortem
originalmente escrito em 8/09/2010,
com a proposta de redação sendo o diário de
algo que não seja humano.
com a proposta de redação sendo o diário de
algo que não seja humano.
Eles sempre esperam por mim. Todo dia, toda hora, apesar do medo racional pela minha vinda inevitável. É por isso que estou aqui sentada, minhas asas escuras como meus olhos dobradas para trás.
É pele, eu acho. É pele este pedaço que resolvi tomar como diário. As letras são escarlates e a ponta afiada de uma pena minha corta limpo as palavras.
Todos eles esperam por mim e eu nem sequer posso me visitar parar me livrar dessa dor, dessa angústia.
As imagens vem até mim, uma criança, só uma criança e eu estou tão cansada de livrá-los de seus eternos jogos, tão mais eternos que todos eles juntos.
É sempre assim, todo dia. Esse diário terá uma só página, porque eu sei que vai ser sempre assim, até que o último deles venha dançar nas minhas asas.
O ódio. O ódio que eles tem de mim, como se em algum ponto eu pedi para ser isso. Eu venho até eles, os que clamam e os que temem. Às vezes eu sou a única que vai visitá-los, a única que oferece abrigo, envoltos em minha asas frias, mas completas. A única certeza nesse circo de dúvidas que eles criaram.
Eu já posso ouvir ao longe um choro de criança, prevejo os gritos, as pragas, o meu nome amaldiçoado de boca em boca.
Eu não queria ter que fazer isso.
Vou deixar essa página aqui. O nome de todos eles queima na minhas costas.
Vai ser sempre assim.
20100915
rotina (os lados)
Era só um dia como qualquer outro. O despertador o arrancou dos sonhos para uma realidade que não parecia promissora. A rotina ia lentamente consumindo a sua força, a sua vontade. Todos os planos pareciam pálidos, e ficar sentado lendo parecia um bom jeito de passar as horas cada vez mais vazias. As músicas estavam sempre entonando o ar, mas não prestava mais tanta atenção.
Ele se vestiu, como sempre. O sol ia filtrando pelas frestas da janela, esquentando o aço que passou a noite protegendo o quarto do mundo frio lá fora. O barulho das ondas lavando a areia, hipnotizando o mundo com seu suave murmúrio. Os minutos vazios onde ele esquecia quem era iam ao pouco indo embora, e o peso da realidade caía. Não havia perspectivas pro dia, não havia vontade. Era automático, era rotineiro, a vida não vai mudar hoje.
20100714
20100710
nas sombras daquele banco
Não havia dor maior, vazio maior para ele, do que ver tudo o que tu queria para ti na vida dos outros.
A noite já encobria o pátio, e as luzes amarelas de sódio cobriam o rosto de todo mundo, se fundindo com a luz branca dos longos tubos fluorescentes. Conversas, sussuros, e a luz artificial fazendo sombras nos rostos, mesclando riso e choro em cada um.
E lá estava ele, sentado sozinho nas sombras daquele banco. Esperando, como sempre. Esperando pela chance de agradar, de talvez ganhar um abraço, um sorriso. Ele sabia que não deveria fazer isso. Ela não sei importava e mandava-o se preocupar com ele mesmo, mas não sabia ela que era isso o que ele fazia. Uma gratidão, um abraço, um sorriso era pensar em si.
Ele já devia ter tido embora, ter ido fazer suas coisas, ter seguido com seus amigos. Mas ele sempre tenta, e agora espera.
Seus olhos acompanham o movimento das pessoas, até que um grupo de pessoas para mais adiante e ele a vê.
Tu já acordou de um sonho ruim, respirando pesado no meio da noite nenhuma, assustado por ver a pessoa que tu mais ama indo embora e não poder fazer nada?
Um arrepio horrível subiu suas pernas, um buraco sem fim se instalou em seu estômago, seu coração pareceu falhar. Os braços dela ao redor de outra pessoa, os lábios se abrindo, os olhos fechados. Outra pessoa tirando a minha garota pra dançar.
Enquanto seu mundo gentilmente acertava o chão, um sorriso triste percorreu seu rosto enquanto ele voltava para seu banco solitário. E esperou.
Um segundo, uma hora, não importava. Ela se sentou ao seu lado.
- Que bom que tu me esperou. Tentei vir mais cedo, mas nem tive como.
Nem um abraço, um beijo, um carinho. Só um garoto ao acaso sentado sozinho.
- Bem, tenho que ir indo, a gente se fala amanhã. - Ela encosta de leve o rosto no dele e quando ele pisca, ela se foi.
Suas mãos se cruzam em frente aos joelhos ao vê-la partir. Uma pedra do tamanho da sua diferença, do seu vazio, se entala em sua garganta.
- Obrigado por ter vindo.
Suas palavras se perdem no pátio agora vazio. Ele não pretende sair de lá tão cedo, não há pra onde ir, ninguém que esperasse por ele.
Em suas mãos cruzadas, os dedos escondendo a primeira parte de linhas e linhas sobre coisas que ele desejava.
E essas linhas tinham acabo de levantar e ir embora, deixando-o sozinho nas sombras daquele banco.
A noite já encobria o pátio, e as luzes amarelas de sódio cobriam o rosto de todo mundo, se fundindo com a luz branca dos longos tubos fluorescentes. Conversas, sussuros, e a luz artificial fazendo sombras nos rostos, mesclando riso e choro em cada um.
E lá estava ele, sentado sozinho nas sombras daquele banco. Esperando, como sempre. Esperando pela chance de agradar, de talvez ganhar um abraço, um sorriso. Ele sabia que não deveria fazer isso. Ela não sei importava e mandava-o se preocupar com ele mesmo, mas não sabia ela que era isso o que ele fazia. Uma gratidão, um abraço, um sorriso era pensar em si.
Ele já devia ter tido embora, ter ido fazer suas coisas, ter seguido com seus amigos. Mas ele sempre tenta, e agora espera.
Seus olhos acompanham o movimento das pessoas, até que um grupo de pessoas para mais adiante e ele a vê.
Tu já acordou de um sonho ruim, respirando pesado no meio da noite nenhuma, assustado por ver a pessoa que tu mais ama indo embora e não poder fazer nada?
Um arrepio horrível subiu suas pernas, um buraco sem fim se instalou em seu estômago, seu coração pareceu falhar. Os braços dela ao redor de outra pessoa, os lábios se abrindo, os olhos fechados. Outra pessoa tirando a minha garota pra dançar.
Enquanto seu mundo gentilmente acertava o chão, um sorriso triste percorreu seu rosto enquanto ele voltava para seu banco solitário. E esperou.
Um segundo, uma hora, não importava. Ela se sentou ao seu lado.
- Que bom que tu me esperou. Tentei vir mais cedo, mas nem tive como.
Nem um abraço, um beijo, um carinho. Só um garoto ao acaso sentado sozinho.
- Bem, tenho que ir indo, a gente se fala amanhã. - Ela encosta de leve o rosto no dele e quando ele pisca, ela se foi.
Suas mãos se cruzam em frente aos joelhos ao vê-la partir. Uma pedra do tamanho da sua diferença, do seu vazio, se entala em sua garganta.
- Obrigado por ter vindo.
Suas palavras se perdem no pátio agora vazio. Ele não pretende sair de lá tão cedo, não há pra onde ir, ninguém que esperasse por ele.
Em suas mãos cruzadas, os dedos escondendo a primeira parte de linhas e linhas sobre coisas que ele desejava.
E essas linhas tinham acabo de levantar e ir embora, deixando-o sozinho nas sombras daquele banco.
- Tu deveria aprender a hora de desistir.- E já é hora de desistir?- Já passou da hora.t.
calendário
O interruptor, como sempre, trancou. Meus dedos desistiram dele assim que viram a luz azulada entrando pela janela aberta. O barulho das ondas enchia o quarto, o cheiro de maresia entrava pelas frestas. Era só mais um dia amanhecendo. Eu acho que eu nunca havia parado na porta e reparado nele de verdade. Cheguei a conclusão de que ele era o que eu imaginava quando eu pensava no quarto dentro da minha mente. Livros de memórias, CDs com músicas que cantam memórias, uma tela grande para acessar um outro mundo. Uma janela pra entrar a luz.
Atravessei o quarto sem fazer barulho. A cama ainda estava arrumada, como eu havia deixado noite passada antes de sair. Fui defronte à janela, e sentei, sentindo o colchão afundar embaixo de mim. O mundo acordava, e eu me peguei pensando quantas milhões e milhões de vezes aquelas ondas batiam ali. Era a única certeza, a única variável da vida delas. Como eu invejei as ondas naquela manhã.
Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali sentado, mas não deve ter sido muito. O céu continuava naquele azul metálico, denso, sem uma única nuvem no céu. O mar era mercúrio. A luz suave, branca, fria, batia por todo o quarto. Acho que ao ver aquela luz que a verdade resolveu bater à minha porta. Quantas vezes eu tinha visto o rosto dela naquela mesma luz? Vi seu sorriso, vi seu gozo, vi a inocência do sono dela. Até mesmo lágrimas eu já havia visto dela por aqui. Havia tanto dela por aqui.
O que me fez chorar foi o cheiro.
O cheiro dela estava em tudo, e principalmente em mim. Era suave e único, parecia beijar minha boca e se infiltrar nos meus pulmões. Dava razão às minhas lágrimas quentes. Em um canto, a carteira de cigarro que nós preferíamos, que sempre se mostrava presente no final de tudo de melhor que nós fazíamos naquela cama. Era o nosso ritual, e era nosso, o que fazia toda a diferença. Um livro que ela esqueceu ali estava em baixo do travesseiro dela, do jeito que ela me mostrou mil vezes. Meus dedos percorreram a capa marcada, e o cheiro dela estava ali também. Abri a página e senti um nó na garganta ao saber que ela jamais buscaria aquele livro, e que talvez jamais terminasse de ler, ou chegasse na última página e visse as palavras que eu havia escrito, frases de saudade nos dias que ela não estava ali comigo. Minha respiração estava pesada, e eu sentia meus pulmões tremendo a cada respiração profunda. Sentia frio também, mas eu sabia que não haveria cobertor que esquentasse. O vácuo era frio. Era algo que eu sabia, Física era a minha área de escolha, junto com os livros que eu escrevia. Mas eu não sabia que poderia existir vácuo dentro do meu peito. Um vazio tão intenso, tão frio, e ainda assim, ecoando nas batidas fortes da velha fortaleza de gelo.
Um gemido baixo escapou sem querer, um tremor. Não havia nada que eu poderia fazer, e doía tanto. As manhãs que eram nossas agora eram algo que eu teria que aprender a viver sem. Todas as promessas, todos os sonhos, todas as peças, os rituais, as brincadeiras, eu teria que viver sem elas. Eu não sabia se eu conseguiria, me faltava o conhecimento de como eu faria tal coisa. Dor, a dor era real. Não havia ferimentos visiveis, não havia sangue. Mas doía, parecia comprimir, parecia que eu ia ruir pra dentro de mim mesmo, e tudo o que eu via, era ela. Eu me recusava a olhar para as fotos, para os desenhos, para qualquer coisa. Eu só olhava pro mar e sentia o livro nas minhas mãos, e as lágrimas queimando, derretendo. Quantas horas demoraria para o sono finalmente vencer o medo e eu conseguisse sonhar? Eu sonharia com abraços, com beijos, acordaria chorando. E me perguntaria o que aquilo significava. E o que eu me responderia?
Eu responderia que significa tudo.
Atravessei o quarto sem fazer barulho. A cama ainda estava arrumada, como eu havia deixado noite passada antes de sair. Fui defronte à janela, e sentei, sentindo o colchão afundar embaixo de mim. O mundo acordava, e eu me peguei pensando quantas milhões e milhões de vezes aquelas ondas batiam ali. Era a única certeza, a única variável da vida delas. Como eu invejei as ondas naquela manhã.
Eu não sei quanto tempo eu fiquei ali sentado, mas não deve ter sido muito. O céu continuava naquele azul metálico, denso, sem uma única nuvem no céu. O mar era mercúrio. A luz suave, branca, fria, batia por todo o quarto. Acho que ao ver aquela luz que a verdade resolveu bater à minha porta. Quantas vezes eu tinha visto o rosto dela naquela mesma luz? Vi seu sorriso, vi seu gozo, vi a inocência do sono dela. Até mesmo lágrimas eu já havia visto dela por aqui. Havia tanto dela por aqui.
O que me fez chorar foi o cheiro.
O cheiro dela estava em tudo, e principalmente em mim. Era suave e único, parecia beijar minha boca e se infiltrar nos meus pulmões. Dava razão às minhas lágrimas quentes. Em um canto, a carteira de cigarro que nós preferíamos, que sempre se mostrava presente no final de tudo de melhor que nós fazíamos naquela cama. Era o nosso ritual, e era nosso, o que fazia toda a diferença. Um livro que ela esqueceu ali estava em baixo do travesseiro dela, do jeito que ela me mostrou mil vezes. Meus dedos percorreram a capa marcada, e o cheiro dela estava ali também. Abri a página e senti um nó na garganta ao saber que ela jamais buscaria aquele livro, e que talvez jamais terminasse de ler, ou chegasse na última página e visse as palavras que eu havia escrito, frases de saudade nos dias que ela não estava ali comigo. Minha respiração estava pesada, e eu sentia meus pulmões tremendo a cada respiração profunda. Sentia frio também, mas eu sabia que não haveria cobertor que esquentasse. O vácuo era frio. Era algo que eu sabia, Física era a minha área de escolha, junto com os livros que eu escrevia. Mas eu não sabia que poderia existir vácuo dentro do meu peito. Um vazio tão intenso, tão frio, e ainda assim, ecoando nas batidas fortes da velha fortaleza de gelo.
Um gemido baixo escapou sem querer, um tremor. Não havia nada que eu poderia fazer, e doía tanto. As manhãs que eram nossas agora eram algo que eu teria que aprender a viver sem. Todas as promessas, todos os sonhos, todas as peças, os rituais, as brincadeiras, eu teria que viver sem elas. Eu não sabia se eu conseguiria, me faltava o conhecimento de como eu faria tal coisa. Dor, a dor era real. Não havia ferimentos visiveis, não havia sangue. Mas doía, parecia comprimir, parecia que eu ia ruir pra dentro de mim mesmo, e tudo o que eu via, era ela. Eu me recusava a olhar para as fotos, para os desenhos, para qualquer coisa. Eu só olhava pro mar e sentia o livro nas minhas mãos, e as lágrimas queimando, derretendo. Quantas horas demoraria para o sono finalmente vencer o medo e eu conseguisse sonhar? Eu sonharia com abraços, com beijos, acordaria chorando. E me perguntaria o que aquilo significava. E o que eu me responderia?
Eu responderia que significa tudo.
t.
20100707
mais cedo do que o sol
Enquanto o sol lentamente, friamente, ia entrando no quarto, iluminando o seu rosto cansado, o mundo pareceu suspirar. A janela escancarada mostrava cenas que ele não reconhecia mais, e enquanto o sol subia e os pássaros voavam pela neblina baixa daquela manhã, lembranças brincam de esconde-esconde com todas as sombras do quarto. Uma música suave tocava em algum lugar do quarto, mal sabendo ela que à partir de hoje, nos anos que se seguirem, ela sempre vai provocar arrepios e uma dor grave, funda. Virou a melodia daquela dor.
Estava frio, mas ele não se importava, mal notava. Apele se arrepiava, e ele não sabia se era pelo frio, pela luz gelada da manhã. Podia ser do sono, do medo, da saudade. Podia ser do vazio.
O mundo acordava, o sol nascia, mas em algum lugar dentro dele, muitas coisas pareciam morrer. Algumas eram mortas pela mágoa, doce amargura. Como ele conseguiria seguir adiante? Queria ele saber. Queria ter a certeza do sol, que nasce e morre todo dia, seguindo seu caminho até sua luz entrar em colapso. Uma hora ou outra, ele sabia, ele iria descobrir como conseguiria, mas a certeza do desconhecido o assustava mais que tudo.
Ele não se importaria se ela tivesse ficado um pouco mais.
Estava frio, mas ele não se importava, mal notava. Apele se arrepiava, e ele não sabia se era pelo frio, pela luz gelada da manhã. Podia ser do sono, do medo, da saudade. Podia ser do vazio.
O mundo acordava, o sol nascia, mas em algum lugar dentro dele, muitas coisas pareciam morrer. Algumas eram mortas pela mágoa, doce amargura. Como ele conseguiria seguir adiante? Queria ele saber. Queria ter a certeza do sol, que nasce e morre todo dia, seguindo seu caminho até sua luz entrar em colapso. Uma hora ou outra, ele sabia, ele iria descobrir como conseguiria, mas a certeza do desconhecido o assustava mais que tudo.
Ele não se importaria se ela tivesse ficado um pouco mais.
t.
20100706
teu fantasma aqui na chuva
As balas zuniam em volta da sua cabeça. A fumaça subia em espirais, o cheiro do sangue e sujeira se fundia com a pólvora quente. O peso da arma e a textura do cabo de madeira agredia sua pele.
Ele havia perdido tudo nessa guerra. Cada barulho de explosão e estampido de tiro
queimava fundo nas feridas muito mais profundas do que qualquer corte ou ferimento de bala.
tu vai (me amar ainda) esperar por mim?
O barulho de trovões enchia a noite, silenciando os gritos de guerra, os desesperados gemidos dos que só esperavam para morrer. Suas costas se encontravam em um ângulo torto em relação a pedra fria.
Todas as peças caindo ao seu desejo.
Ele teve que vir, era seu dever.
como tu supõe que eu vá (viver) lutar sem a certeza te (beijar) encontrar aqui de novo?
A chuva cai, mas não lava o sangue seco nas suas mãos. Como ele queria que a chuva o lavasse até os ossos, apagando os olhos dela, todos esses sorrisos e essas lembranças boas demais para que ele quisesse morrer ali sem elas.
A dúvida doeu mais do que a bala que atravessou seu pulmão.
eu vou voltar se eu (tu) quiser, mas tu (eu) não vou estar aqui, de qualquer modo
Enquanto seu rifle cai inútil na lama e seu sangue se diluindo na chuva e barro, ele deita sem gritos, sem desespero.
Os clarões iluminavam o céu, e bem ao longe naquela planície sangrenta, uma estrela brilhou pra ele. Se ele fechasse os olhos agora, a imagem ficaria gravada ali, pra sempre, gravada como um planeta, tão mais próximo dele. As mãos ensangüentadas e sujas se contraem inutilmente. A foto que escapa dos seus dedos se perde na lama, assim como ele a tinha perdido.
eu e ele estamos juntos (minha garota), muito melhores agora.
tu sempre soube que seria (tirada pra dançar por outro garoto) assim.
eu não esperaria por você (a chuva).
não precisa responder, não faria diferença (adeus).
boa sorte onde quer que esteja.
t.
20100705
tuas asas
O sangue gotejava lentamente. A pia brilhava escarlate entrecortada por pingos de água. O espelho era sujo, estrangeiro. O espelho não reconhecia o rosto parado em frente a ele, mas reconhecia sangue, é claro que reconhecia.
O rosto ali parado ostentava olhos fundos, brilhantes. Vazios. A face atrás dos óculos de aros finos ia lentamente empalidecendo. Seus braços abriam-se em arcos ao redor da cerâmica, seus pulsos pulsavam. Em um deles, a lâmina ainda se achava presa no meio daquele mar vermelho, que ia secando e coagulando contra o branco.
Se pudessemos ler aqueles olhos vazio, o que leriamos? Que pesadelos isso iria nos trazer? Noites delirando sobre até que ponto vale continuar tentando? Até onde as peças podem ser postas no lugar?
A lâmpada fluorescente pisca e falha. Ele está no chão, de braços abertos. O sangue formando asas para levá-lo onde ele mais quer estar. No espelho, escrito a dedo com o que sobrou dentro dele, o seu epitáfio em sangue, suas últimas palavras. Uma demonstração de tudo o que ele foi.
"Desculpa por essa bagunça."
O rosto ali parado ostentava olhos fundos, brilhantes. Vazios. A face atrás dos óculos de aros finos ia lentamente empalidecendo. Seus braços abriam-se em arcos ao redor da cerâmica, seus pulsos pulsavam. Em um deles, a lâmina ainda se achava presa no meio daquele mar vermelho, que ia secando e coagulando contra o branco.
Se pudessemos ler aqueles olhos vazio, o que leriamos? Que pesadelos isso iria nos trazer? Noites delirando sobre até que ponto vale continuar tentando? Até onde as peças podem ser postas no lugar?
A lâmpada fluorescente pisca e falha. Ele está no chão, de braços abertos. O sangue formando asas para levá-lo onde ele mais quer estar. No espelho, escrito a dedo com o que sobrou dentro dele, o seu epitáfio em sangue, suas últimas palavras. Uma demonstração de tudo o que ele foi.
"Desculpa por essa bagunça."
t.
20100704
assim tão longe
O sol se deitava lentamente na água. O laranja se mesclava com o azul e rosa dos céus, e cada grão de areia parecia brilhar em chamas. Sob seus pés, bilhões de mundos escuros eram triturados por seus passos. A praia continha sua areia negra e ela continha um coração em dúvidas. Pensamentos como redemoinhos, olhos tristes que viam o sol se pondo e contemplavam seu fim, sabendo que ele voltaria a brilhar pro mundo pela manhã, mas não para todo mundo.
Seus pés cansados pisam em algo que poderia ter vindo daquela praia, daquele mesmo lugar, mas ela jamais poderia saber. O vidro ainda estava intacto, e fragmentos grudavam na superfície brilhante e transparente. Seu vestido simples, suave, fez voltas em suas pernas quando ela se abaixou para pegar a garrafa, e um sorriso de dúvida se formou em seu rosto ao ver que havia um pequeno canudo de papel dentro da garrafa. Seus olhos circundaram a praia, e só ela havia ali. Seus dedos abriram a garrafa, e ela balançou a garrafa até que o papel caisse em sua mão.
Linhas de tinta corriam a página, em uma caligrafia limpa. Ela falava sobre beijos longos, respirações pesadas em harmonia. Ela falava sobre um companheirismo de longos anos, de muitos poréns, mas indestrutível, inferrujável.
Quantos anos separam aquela praia de areias negras daquele amor? Seus olhos antes secos agora incubam toneladas quentes. Deve ter sido um amor tão bonito, ela pensa, para ela ter coragem de tocá-lo ao mar, e quem, qual pessoa, razão, ela queria mostrar tudo o que teve? O sol brilhou na garrafa enquanto ela caia aos seus pés, e seus passos não foram interrompidos pelos cortes enquanto ela ia adiante, cada vez mais adiante na praia de areias negras. Negras e agora salpicadas de escarlate.
Passos e mais passos, pensamentos em turbilhão, e ela vê cada vez mais perto o velho penhasco no fim da praia. Quantas vezes ela sonhou com aquele penhasco, sonhou com cada pedra, cada grão, cada mundo contido naquele enorme paredão, a apoteose de tudo o que ela era. A água laranja lambia as paredes, feroz, clamando.
Enquanto ia chegando mais perto, com sua cabeça longe, nas nuvens, não se importando com nada, nada, como sempre havia feito, outra garrafa.
Era irônico, não era?
Abriu-a e notou que a caligrafia era fina, rápida, cheia de agonia. De quem eram as lágrimas que borravam essa tinta? De quem era a dor e essa incerteza? Ela não sabia, mas entendia. Seus olhos queimavam enquanto percebia que não sabia se ele havia tido a chance de falar sobre tudo para quem ele escrevia, se algo havia mudado, e quantas noites ele deve ter passado acordado pensando nas chances de ela ler tudo. Por que ele não viu que estava no fundo, por que ele não viu o que vinha a seguir? E ela chora pela dor indireta, sem saber, sem saber.
Seus pés agora alcançavam o penhasco, e o sol já era abraçado pelo mar, velho companheiro de tantos outros corações quebrados. A vegetação fina balança ao vento, e o vento parece brincar entre as areias negras, sussurando tudo o que ela queria ouvir, tudo o que ela precisava ouvir. O sol brilhou, ela sorriu, e seus pés cansados e escarlates disseram adeus para a praia das areias negras.
Vamos dizer, então, que ela está tão melhor assim tão longe.
E ela nunca foi tão feliz como está sendo enquanto o mar a abraça junto com o sol.
Ela está tão melhor assim tão longe.
Seus pés cansados pisam em algo que poderia ter vindo daquela praia, daquele mesmo lugar, mas ela jamais poderia saber. O vidro ainda estava intacto, e fragmentos grudavam na superfície brilhante e transparente. Seu vestido simples, suave, fez voltas em suas pernas quando ela se abaixou para pegar a garrafa, e um sorriso de dúvida se formou em seu rosto ao ver que havia um pequeno canudo de papel dentro da garrafa. Seus olhos circundaram a praia, e só ela havia ali. Seus dedos abriram a garrafa, e ela balançou a garrafa até que o papel caisse em sua mão.
Linhas de tinta corriam a página, em uma caligrafia limpa. Ela falava sobre beijos longos, respirações pesadas em harmonia. Ela falava sobre um companheirismo de longos anos, de muitos poréns, mas indestrutível, inferrujável.
Quantos anos separam aquela praia de areias negras daquele amor? Seus olhos antes secos agora incubam toneladas quentes. Deve ter sido um amor tão bonito, ela pensa, para ela ter coragem de tocá-lo ao mar, e quem, qual pessoa, razão, ela queria mostrar tudo o que teve? O sol brilhou na garrafa enquanto ela caia aos seus pés, e seus passos não foram interrompidos pelos cortes enquanto ela ia adiante, cada vez mais adiante na praia de areias negras. Negras e agora salpicadas de escarlate.
Passos e mais passos, pensamentos em turbilhão, e ela vê cada vez mais perto o velho penhasco no fim da praia. Quantas vezes ela sonhou com aquele penhasco, sonhou com cada pedra, cada grão, cada mundo contido naquele enorme paredão, a apoteose de tudo o que ela era. A água laranja lambia as paredes, feroz, clamando.
Enquanto ia chegando mais perto, com sua cabeça longe, nas nuvens, não se importando com nada, nada, como sempre havia feito, outra garrafa.
Era irônico, não era?
Abriu-a e notou que a caligrafia era fina, rápida, cheia de agonia. De quem eram as lágrimas que borravam essa tinta? De quem era a dor e essa incerteza? Ela não sabia, mas entendia. Seus olhos queimavam enquanto percebia que não sabia se ele havia tido a chance de falar sobre tudo para quem ele escrevia, se algo havia mudado, e quantas noites ele deve ter passado acordado pensando nas chances de ela ler tudo. Por que ele não viu que estava no fundo, por que ele não viu o que vinha a seguir? E ela chora pela dor indireta, sem saber, sem saber.
Seus pés agora alcançavam o penhasco, e o sol já era abraçado pelo mar, velho companheiro de tantos outros corações quebrados. A vegetação fina balança ao vento, e o vento parece brincar entre as areias negras, sussurando tudo o que ela queria ouvir, tudo o que ela precisava ouvir. O sol brilhou, ela sorriu, e seus pés cansados e escarlates disseram adeus para a praia das areias negras.
Vamos dizer, então, que ela está tão melhor assim tão longe.
E ela nunca foi tão feliz como está sendo enquanto o mar a abraça junto com o sol.
Ela está tão melhor assim tão longe.
20100630
essa velha cela enferrujada
O final do dia ia se insinuando. Um recorte laranja ia subindo pela porta, filtrado no vidro sujo daquele quarto.
Os sussurros que vinham das paredes, se fossem ouvidos com cuidados, falariam de um tempo melhor, um tempo onde havia risos de crianças, gemidos, promessas de amor. Era um quarto onde a outrora cuidada cama de casal jazia no passado, e tudo o que sobrara fora um amontoado de colchas no chão sujo.
(eu não sabia o que fazer era tudo escuridão dentro da minha cabeça e quando eu vi ah quando eu vi eu estava correndo pros teus braços sem saber se isso era certo e não havia mais jeito de me livrar daquilo não agora não quando estava no meu sangue)
Três frascos estavam do lado do amontoado de colchas, que parecia respirar, parecia viver. Mas não, ele sabia que não vivia mais, as consequências só tardavam a chegar. As seringas espalhadas pareciam refletir as palavras de fracasso em sua mente cansada, seus olhos injetados. Livros e mais livros se misturavam perto das paredes. Os ossos a mostra resultavam na falta de qualquer tipo de restos, e só a fuligem, o pó e o fracasso por não poder fazer nada estavam ali com ele. Um pedaço amassado, mil vezes abraçado, de uma fotografia antiga estava na mão que saía do amontoado sujo do chão. E era de fato só um pedaço, e só mostrava aquilo que ele mais amava, e quando a doce corrente transbordava naquele sangue, e foto ia caíndo em direção ao chão, e ele sonhava antes mesmo de ela acertá-lo.
(pai olha só eu desenhei pra ti é você meu herói e lá estava ele sorrindo e eu nunca vou conseguir esquecer aqueles olhos brilhantes e ela e ela estava lá também e o sorriso dela era um ótimo porquê e cá estou eu sempre predisposto a esquecer a melhor parte um herói morrendo sem honras)
Seus olhos se abrem pro mundo de novo, e sua respiração está muito mais fraca agora. E seus olhos esquadrinham a porta, os livros e o jogo de luzes que o fim de tarde produzia neles. Era a cor da dor, quente, insinuante, transformando tudo em ferrugem. Era a dor de quem não pode fazer nada, só sentar e assistir, como uma platéia vendo um malabarista se soltando de suas cordas e mergulhando de encontro ao chão, seu velho amigo. Não é engraçado como tudo cai em pedaços no final?
(e seus ossos eram os meus minha casa era a sua casa e só o que faltava era entender que a vida deles não era eterna e que deveria chegar a esse fim o que doia era pensar pai pai pai eu fui primeiro olá amor como foi no trabalho e eu vim aqui só pra pedir que você não se esqueça de lembrar de mim e quando tudo caiu e o medo de perder me afastou eu corri dos teus braços e eu não soube quando tempo eu aguentaria tudo isso evidente cravado nos meus olhos)
Dez mil fragmentos de vidro jaziam perto dos livros, pedaços rachados de madeira, cinzas de fotos queimadas. Era assim, então. No meio da sujeira de tudo que um dia ele foi, frascos e seringas pra apaziguar a dor, aquele vazio imenso que se instalou, que nunca conseguiu preencher. E quando os dias passavam vazios, em meio a livros, algumas bebidas e lembranças, lixo, perda e eventuais saídas pra se alimentar do que quer que encontrasse. E em uma dessas, ele encontrou a solução. E sua respiração era inversamente proporcional ao alívio que ele sentia ao ver tudo escurecendo.
(ei amor posso tirar uma foto do teu sorriso eu acho que eu quero ele assim pra mim sempre radiante radiante do modo que ficou o teu orgulho quando tu viu o nosso filho caminhando pela primeira vez brilhando e sabendo que ele parecia comigo e como tu esperou esses primeiros passos os primeiros balbucios e era tão irônico me ver sussurando na sua barriga feliz por ter te provado que a vida ia mais adiante do que tu sempre achou e tu sorriu)
E então ele abriu seus olhos pela última vez. As seringas rolaram pra longe, e ele sentia espasmos de seu estômago tentando retirar algo que não estava lá. Os frascos se quebraram embaixo dos seus braços, e ele se deliciou em ver o sangue vertendo da dobra do seu pulso. Uma forma inconsciente de acalentar o processo, de evitar que houvesse chance. Ele suspira, sorri e seus olhos fecham para o luz e a sujeira daquele quarto solitário, em um lugar que já não importava.
(e você se perguntava tanto porque eu tentava te mostrar todas essas coisas e enquanto tudo estava apagando dentro da minha cabeça eu entendi eu nunca tive medo de morrer tive medo de continuar vivendo sem lembrar o porquê só que é claro que a vida nunca funcionava assim não pra mim e vocês foram primeiro foram tão rápidos do jeito que vieram e enquanto as luzes se apagam eu gostaria de citar que você é o motivo de eu não estar com medo predisposto a ser eternamente o herói de algo que não luta mais e eu nunca deixaria vocês serem testemunhas disso mas mesmo assim eu nunca pude deixar de lado as evidências e vocês foram todas elas)
A noite já entrava pelo quarto, e luz naquele quarto jamais haveria outra vez. Os livros da base da pilha já iam começando a se escurescer ainda mais, empapados no sangue que escorria. Os cobertores por fim silenciaram sua respiração, e os sussurros e risos vindo das paredes cobraram sua dívida. A sujeira agora era escarlante, e escarlate era também a foto que continuava firmemente presa entre os dedos sujos. O sorriso continuava lá, petrificado pra todo sempre.
(e eu estava protegido nos meus sonhos com vocês)
Os sussurros que vinham das paredes, se fossem ouvidos com cuidados, falariam de um tempo melhor, um tempo onde havia risos de crianças, gemidos, promessas de amor. Era um quarto onde a outrora cuidada cama de casal jazia no passado, e tudo o que sobrara fora um amontoado de colchas no chão sujo.
(eu não sabia o que fazer era tudo escuridão dentro da minha cabeça e quando eu vi ah quando eu vi eu estava correndo pros teus braços sem saber se isso era certo e não havia mais jeito de me livrar daquilo não agora não quando estava no meu sangue)
Três frascos estavam do lado do amontoado de colchas, que parecia respirar, parecia viver. Mas não, ele sabia que não vivia mais, as consequências só tardavam a chegar. As seringas espalhadas pareciam refletir as palavras de fracasso em sua mente cansada, seus olhos injetados. Livros e mais livros se misturavam perto das paredes. Os ossos a mostra resultavam na falta de qualquer tipo de restos, e só a fuligem, o pó e o fracasso por não poder fazer nada estavam ali com ele. Um pedaço amassado, mil vezes abraçado, de uma fotografia antiga estava na mão que saía do amontoado sujo do chão. E era de fato só um pedaço, e só mostrava aquilo que ele mais amava, e quando a doce corrente transbordava naquele sangue, e foto ia caíndo em direção ao chão, e ele sonhava antes mesmo de ela acertá-lo.
(pai olha só eu desenhei pra ti é você meu herói e lá estava ele sorrindo e eu nunca vou conseguir esquecer aqueles olhos brilhantes e ela e ela estava lá também e o sorriso dela era um ótimo porquê e cá estou eu sempre predisposto a esquecer a melhor parte um herói morrendo sem honras)
Seus olhos se abrem pro mundo de novo, e sua respiração está muito mais fraca agora. E seus olhos esquadrinham a porta, os livros e o jogo de luzes que o fim de tarde produzia neles. Era a cor da dor, quente, insinuante, transformando tudo em ferrugem. Era a dor de quem não pode fazer nada, só sentar e assistir, como uma platéia vendo um malabarista se soltando de suas cordas e mergulhando de encontro ao chão, seu velho amigo. Não é engraçado como tudo cai em pedaços no final?
(e seus ossos eram os meus minha casa era a sua casa e só o que faltava era entender que a vida deles não era eterna e que deveria chegar a esse fim o que doia era pensar pai pai pai eu fui primeiro olá amor como foi no trabalho e eu vim aqui só pra pedir que você não se esqueça de lembrar de mim e quando tudo caiu e o medo de perder me afastou eu corri dos teus braços e eu não soube quando tempo eu aguentaria tudo isso evidente cravado nos meus olhos)
Dez mil fragmentos de vidro jaziam perto dos livros, pedaços rachados de madeira, cinzas de fotos queimadas. Era assim, então. No meio da sujeira de tudo que um dia ele foi, frascos e seringas pra apaziguar a dor, aquele vazio imenso que se instalou, que nunca conseguiu preencher. E quando os dias passavam vazios, em meio a livros, algumas bebidas e lembranças, lixo, perda e eventuais saídas pra se alimentar do que quer que encontrasse. E em uma dessas, ele encontrou a solução. E sua respiração era inversamente proporcional ao alívio que ele sentia ao ver tudo escurecendo.
(ei amor posso tirar uma foto do teu sorriso eu acho que eu quero ele assim pra mim sempre radiante radiante do modo que ficou o teu orgulho quando tu viu o nosso filho caminhando pela primeira vez brilhando e sabendo que ele parecia comigo e como tu esperou esses primeiros passos os primeiros balbucios e era tão irônico me ver sussurando na sua barriga feliz por ter te provado que a vida ia mais adiante do que tu sempre achou e tu sorriu)
E então ele abriu seus olhos pela última vez. As seringas rolaram pra longe, e ele sentia espasmos de seu estômago tentando retirar algo que não estava lá. Os frascos se quebraram embaixo dos seus braços, e ele se deliciou em ver o sangue vertendo da dobra do seu pulso. Uma forma inconsciente de acalentar o processo, de evitar que houvesse chance. Ele suspira, sorri e seus olhos fecham para o luz e a sujeira daquele quarto solitário, em um lugar que já não importava.
(e você se perguntava tanto porque eu tentava te mostrar todas essas coisas e enquanto tudo estava apagando dentro da minha cabeça eu entendi eu nunca tive medo de morrer tive medo de continuar vivendo sem lembrar o porquê só que é claro que a vida nunca funcionava assim não pra mim e vocês foram primeiro foram tão rápidos do jeito que vieram e enquanto as luzes se apagam eu gostaria de citar que você é o motivo de eu não estar com medo predisposto a ser eternamente o herói de algo que não luta mais e eu nunca deixaria vocês serem testemunhas disso mas mesmo assim eu nunca pude deixar de lado as evidências e vocês foram todas elas)
A noite já entrava pelo quarto, e luz naquele quarto jamais haveria outra vez. Os livros da base da pilha já iam começando a se escurescer ainda mais, empapados no sangue que escorria. Os cobertores por fim silenciaram sua respiração, e os sussurros e risos vindo das paredes cobraram sua dívida. A sujeira agora era escarlante, e escarlate era também a foto que continuava firmemente presa entre os dedos sujos. O sorriso continuava lá, petrificado pra todo sempre.
(e eu estava protegido nos meus sonhos com vocês)
20100621
this heart of mine
...e o dia ia nascendo, mais rápido do que ele queria. A luz fria, clara, completa da manhã ia lentamente colorindo o quarto. Ele não sabia, de verdade, se deveria ser grato por esses suaves raios. Por um lado, quantos mais raios, mais ele veria ela ali, deitada ao seu lado, dormindo virada pra ele, acomodada em cima da curva do seu braço. Por outro, cada segundo de luz era um segundo se aproximando da hora dos beijos de despedida e do inevitável vazio que se instalaria no seu corpo. Mas por enquanto, nesse interminável segundo, ele sorria. Sorria ao som suave da respiração, sorria aos seus pensamentos, sorria ao momento. Um momento tão único, tão inesperado, e ainda assim, sonhado em mil horas acordadas. Outros sussurros, outras respirações, provavelmente também enchiam o quarto, mas para ele, era só ela, como se o mundo se negasse a entrar em foco, não querendo atrapalhar a luz daquela estrela tão brilhante. E ela também sorri. E na incerteza, ele sorri também, torcendo para que aquele sorriso seja pra ele, seja por ele, para sempre. Ele chega mais perto, e abraça forte, sentindo a pele dela contra a sua, sentindo a respiração quente brincando no seu pescoço, e ele jura pra si mesmo jamais deixar isso morrer, que ele amará pelos dois se for preciso, que ele vai se perder em um sorriso e acordar antes de acertar o chão. É um jogo de risco, onde ele provavelmente não será o vencedor, mas enquanto a luz faz o seu trabalho e os aproxima da hora de um suave adeus, ele a abraça forte como se não existissem segundos a correr...
20100426
so see how long I can last
(you can pretend that I don't exist for you and I can laugh about it now)
(but I hated every minute)
(and each day that you forgot to call, just made me feel so low)
(I tried to call, I just couldn't wait)
(OK OK OK you've won)
(you make me feel so low)
porcupine tree
20100421
martyr
"Obrigado", ele dizia.
"Obrigado por pelo menos tentar."
Palavras são como adagas de dois fios, e por fim ele soube.
cracking you, skye.
20100309
rascunhos - IV
E é como acordar de um sonho e não lembrar dele: tu não entende, mas compreende que talvez seja melhor assim. Talvez seja como compreender o porquê do sorriso dela fazer teu coração disparar loucamente, mesmo que tu não entenda.
Eu acho que em momentos em que as coisas dão errado, é quase humano tentar entender, mas nós falhamos em simplesmente compreender a situação. E nunca compreendemos que somos apenas pequenas faíscas de vida no mundo, e que por mais que sentimos a dor da perda ou o palpitar fundo no peito causado por um sorriso, muitos outros já sentiram isso também e falharam em compreender.
Poetas tentaram entender, grandes conquistadores tentaram entender, cientistas e santos morreram pra entender. E todos falharam em compreender que entender não é algo feito para nós. É algo feito pra se sentir, por pior que sejam as consequências.
Vivi o suficiente pra ver amigos fazendo loucuras, gente se embebedando até vomitar. Vi gente que eu amava se entregando ao mundo e achando isso lindo. Vi um velho coração maltratado batendo forte de novo por alguém. Vi olhos que brilhavam se apagarem por pegarem o caminho mais fácil, sem se lembrar do gosto da vitória final.
Não entendo nenhum, mas compreendo todos, por pior que sejam as consequências.
Para aqueles que são fortes, sejam fortes. Não estar lá e não desistir é sempre o melhor. Por mais que o resultado seja ruim, lembrem-se do gosto de competir e tentar. Lembrem-se de compreender antes de chorar por não entender.
Eu acho que em momentos em que as coisas dão errado, é quase humano tentar entender, mas nós falhamos em simplesmente compreender a situação. E nunca compreendemos que somos apenas pequenas faíscas de vida no mundo, e que por mais que sentimos a dor da perda ou o palpitar fundo no peito causado por um sorriso, muitos outros já sentiram isso também e falharam em compreender.
Poetas tentaram entender, grandes conquistadores tentaram entender, cientistas e santos morreram pra entender. E todos falharam em compreender que entender não é algo feito para nós. É algo feito pra se sentir, por pior que sejam as consequências.
Vivi o suficiente pra ver amigos fazendo loucuras, gente se embebedando até vomitar. Vi gente que eu amava se entregando ao mundo e achando isso lindo. Vi um velho coração maltratado batendo forte de novo por alguém. Vi olhos que brilhavam se apagarem por pegarem o caminho mais fácil, sem se lembrar do gosto da vitória final.
Não entendo nenhum, mas compreendo todos, por pior que sejam as consequências.
Para aqueles que são fortes, sejam fortes. Não estar lá e não desistir é sempre o melhor. Por mais que o resultado seja ruim, lembrem-se do gosto de competir e tentar. Lembrem-se de compreender antes de chorar por não entender.
thomas.
rascunhos - III
E ela parecia tão impossível pra ele.
Jack sabia que não deveria pensar assim, mas havia outro jeito? Às vezes um coração partido precisa de um apoio pra manter as lágrimas que inevitavelmente o enferrujarão. E às vezes ele consegue.
Os fantasmas de Jack haviam se ido. Praticamente todos haviam ido e deixado nele uma sensaão de vazio. Vazio, compreendem?
"Enquanto você coloca meu mundos em pedaços, por favor, tente fazer isso gentilmente."
E Jack se acostumou a isso. Jack passou a olhar o mundo com olhos mais leves, com intensões menos eternas. Passou a pensar no corpo antes do coração. Passou a dar mais valor à carne do que ao sorriso. Ao copo do que à companhia.
Jack foi se perdendo nos outros pra conseguir achar alguém que mudasse tudo, alguém que fizesse valer a pena.
Até que um dia, quando o mundo provava pra ele que uma consciência pode pesar mais do que tudo no universo, ele entendeu.
Um relance, olho ao olho. Um sorriso.
Um mundo de preocupações desabando ao chão. Um mundo de vergonha emergindo daquele coração solitário.
Seria mesmo?
Talvez sim. Talvez não.
Não era a paixão à primeira vista um misto de sombra e luz, verdade e mentira, sim e não? Não era a paixão um paradoxo?
O problema de tudo é explicar isso pra Jack naquele momento. O tempo parou, o chão sumiu e as velhas borboletas impacientes rodopiaram em seu estômago.
Cores desbotando no velho mundo cinza, como a hipnotizante dança da aurora do norte, nas noites frias. Noites sem sono lembrando gestos. O crescimento de uma velha necessidade de ser e de estar, a necessidade de ver um sorriso.
E agora ele sentado ali, com as luzes num tom tão único, olhando fundo nos olhos dela.
Porque não havia medo agora que os olhos dela brilhavam cada vez mais perto dos dele?
Acho que é hora de respirar fundo antes do mergulho.
E ela sempre pareceu tão impossível pra ele.
Jack sabia que não deveria pensar assim, mas havia outro jeito? Às vezes um coração partido precisa de um apoio pra manter as lágrimas que inevitavelmente o enferrujarão. E às vezes ele consegue.
Os fantasmas de Jack haviam se ido. Praticamente todos haviam ido e deixado nele uma sensaão de vazio. Vazio, compreendem?
"Enquanto você coloca meu mundos em pedaços, por favor, tente fazer isso gentilmente."
E Jack se acostumou a isso. Jack passou a olhar o mundo com olhos mais leves, com intensões menos eternas. Passou a pensar no corpo antes do coração. Passou a dar mais valor à carne do que ao sorriso. Ao copo do que à companhia.
Jack foi se perdendo nos outros pra conseguir achar alguém que mudasse tudo, alguém que fizesse valer a pena.
Até que um dia, quando o mundo provava pra ele que uma consciência pode pesar mais do que tudo no universo, ele entendeu.
Um relance, olho ao olho. Um sorriso.
Um mundo de preocupações desabando ao chão. Um mundo de vergonha emergindo daquele coração solitário.
Seria mesmo?
Talvez sim. Talvez não.
Não era a paixão à primeira vista um misto de sombra e luz, verdade e mentira, sim e não? Não era a paixão um paradoxo?
O problema de tudo é explicar isso pra Jack naquele momento. O tempo parou, o chão sumiu e as velhas borboletas impacientes rodopiaram em seu estômago.
Cores desbotando no velho mundo cinza, como a hipnotizante dança da aurora do norte, nas noites frias. Noites sem sono lembrando gestos. O crescimento de uma velha necessidade de ser e de estar, a necessidade de ver um sorriso.
E agora ele sentado ali, com as luzes num tom tão único, olhando fundo nos olhos dela.
Porque não havia medo agora que os olhos dela brilhavam cada vez mais perto dos dele?
Acho que é hora de respirar fundo antes do mergulho.
E ela sempre pareceu tão impossível pra ele.
thomas
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